Um pouco do que faremos aqui

Um dos motivos pelos quais as pessoas sempre estudaram línguas estrangeiras foi o desejo ou a necessidade de ter acesso a tecnologias específicas, poder aprender a usá-las, a consultar manuais, a falar sobre elas com seus fabricantes e assim por diante. Mas, há pelo menos duas décadas, essa relação passou a ser de mão dupla: as pessoas também passaram a se interessar pela tecnologia das  mídias digitais, também chamadas ‘novas tecnologias’, para aprender línguas, ou seja,  para ter acesso a materiais didáticos ditos “interativos”, jogos educacionais digitais, filmes, músicas, textos “autênticos” naquela língua e, eventualmente, interagir com pessoas de outros países e culturas na língua-alvo. Assim, acabamos nos  acostumando a pensar na relação entre ensino de línguas e tecnologias em termos “instrumentais” ou “mediacionais”: a língua é um meio/instrumento para se chegar à tecnologia, ou a tecnologia é um meio/instrumento para se chegar à língua. Será que existiria uma terceira opção?

O curso “Mídias Digitais e Ensino de Línguas” foi pensado para mostrar que sim, isto é, que é possível pensar a relação entre ensino de línguas e tecnologias digitais da informação e comunicação de uma forma “orgânica”, ou seja, aprender/ensinar línguas enquanto se aprende/ensina a produzir conteúdos digitais, e não aprender uma coisa para chegar à outra ou por causa da outra. Claro que isso não é exatamente uma novidade: as pedagogias de aprendizagem baseada em projetos e/ou em problemas, as teorias de aprendizagem situada e mesmo o conceito de aprendizagem incidental já tratam, de alguma forma, desse mesmo modo de pensar a relação entre tecnologias e aprendizagens. Porém, o curso “Mídias Digitais e Ensino de Línguas” procura trazer uma contribuição diferente do que normalmente se faz. Seu foco é capacitar o participante a explorar as diferentes mídias digitais do ponto de vista de sua linguagem, de sua “gramática”, por assim dizer, e a produzir diferentes tipos de objetos (de aprendizagem) digitais em que a língua, os componentes linguísticos de um discurso, que vai ser ensinada/aprendida entra como um dos fios numa trama multimodal. Desse modo, não só a língua é ensinada/aprendida de modo contextualizado e significativo, como o discurso que vai sendo elaborado como produto e processo desse ensino/aprendizagem está de acordo com o que é hoje a realidade da comunicação entre as pessoas, tanto nos contextos formais do trabalho e da escola, como nos contextos informais da vida cotidiana.

O curso vai fornecer ao participante, é claro, subsídios teóricos suficientes para que ele seja capaz de refletir criticamente sobre essa proposta e fundamentar suas próprias ideias em relação ao trabalho com mídias digitais em sua própria prática. Mas o foco principal do curso é o fazer! Após um primeiro momento de trabalho com um componente teórico sólido, porém sucinto, serão realizadas atividades práticas de produção e/ou análise crítica de vídeo digital, áudio digital, jogos digitais e produção e distribuição de conteúdo em mídias sociais. Em cada um desses módulos, o participante vai aprender sobre a linguagem daquele meio específico (os códigos, as convenções, os componentes abstratos subjacentes) e sobre as oportunidades de ensino-aprendizagem de línguas inerentes à construção de sentido no meio. Por exemplo: quais são os diferentes tipos de planos e enquadramentos em vídeo? Que tipo (funções, estilos etc.) de linguagem verbal correspondem a ou combinam com esses planos, e que efeitos de sentido eles provocam? Quais as funções da fala, da música e dos efeitos sonoros na construção de uma narrativa em áudio? Como a falta dos elementos não linguísticos da fala (gestos, expressões faciais, proximidade corporal) pode ser compensada com esses três componentes sonoros?  O que são “árvore do jogo” e “jogabilidade”? Quais os seus análogos na língua/linguagem natural, por exemplo, numa narrativa? De que forma um videogame pode fomentar o foco na forma e/ou no sentido do seu componente linguístico?

Ao final do curso, espera-se que o participante não só se sinta consideravelmente mais próximo de ser aquilo que hoje chamamos de um(a) professor(a) multiletrado(a) – isto é, alguém que tenha não só os conhecimentos técnicos mínimos, mas também uma consciência informada sobre os recursos e estratégias de construção de sentido de cada meio (digital) – como  também tenha tido a oportunidade de repensar sua prática e a prática de seus alunos numa perspectiva de relação mutuamente constitutiva entre linguagens, aprendizagens e mídia.

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