Sobre

Apresentação

O Centro de Estudos sobre Diversidade Antiga. Pré-história, Antiguidade e Idade Média reúne no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, historiadores, filósofos, literatos, filólogos, linguistas, antropólogos sociais e arqueólogos, para, a partir de uma posição crítica em relação à representação de processos hegemônicos, pensar as sociedades Antigas à luz de sua diversidade, tratando de forma crítica as reconstruções homogeneizantes e aquelas que abordam as diversas experiências históricas a partir de parâmetros inflexíveis e exógenos. Para tanto, reconsidera os quadros espaciais e as interações humanas no espaço e no tempo das sociedades que têm ou tiveram uma relação controversa com a modernidade.
A investigação comparada, interdisciplinar, sincrônica e diacrônica, realizada no CEDA pretende contribuir para que o passado possa participar da reflexão crítica sobre os futuros possíveis em uma perspectiva planetária, inclusiva e solidária.

O lugar do passado remoto

O movimento moderno, ao se instituir em tempo histórico, se apresentou como ponto de chegada de uma nova teleologia, que se projetou no tempo (como passado do futuro) e no espaço (como futuro de todas as experiências). Não causa surpresa, portanto, que grandes desafios políticos da modernidade recente passem pela percepção do tempo e pelo controle da definição de acontecimento e fato. Hoje, quando a modernidade se depara com seus limites controversos – entre o crescimento autodestrutivo e a sua superação – revisitar o passado distante ou próximo se torna imprescindível para que tenham lugar a crítica aos conteúdos da memória social e a redefinição do lugar do passado e dos imperativos operantes em seu resgate e registro.
É comum que o estudo do passado remoto seja chamado a justificar-se. Essa cobrança, que não pesa sobre o conhecimento da história, da filosofia, da língua e da literatura de outros períodos, diz algo importante sobre o estatuto do tempo na cultura hegemônica. O estudo de sociedades antigas é respeitado pela erudição que acumula e pela tradição que legitima – notadamente, quando falamos da Antiguidade clássica – quando se trata de temas importantes como liberdade, individualidade e democracia. A despeito desse prestígio no campo no debate cultural e político, a Antiguidade, mesmo aquela chamada clássica, aos olhos da concepção de tempo presente, é vista como coisa definitivamente superada.
Evidentemente que cabe ao passado uma finitude dada pelo tempo, mas não necessariamente como memória da experiência humana. O “presentismo” (A. Krenak, Fr. Hartog) que faz com que percebamos o passado longínquo como superação, restringe seu papel de memória comum e de matéria de sabedoria para as decisões no presente e escolhas sobre o futuro. Evidentemente que o passado longínquo nos coloca diante de uma escolha cultural pela incorporação do muito distante, daquilo de que nem a memória individual, nem a memória oral coletiva dão conta. A escolha pela incorporação desse patrimônio faz parte de uma história em curso e implicitamente carrega o potencial de ser uma escolha por uma história humana e planetária. Para tanto, a história das sociedades antigas – que vai muito além no tempo e no espaço do que a Antiguidade clássica – precisa e pode ser reconsiderada em dois sentidos: no resgate de seu conhecimento pelo prisma da ancestralidade, suas demandas e amplitude deixando de se restringir a uma tradição na qual seu estatuto está limitado à afirmação do presente da modernidade e que por isso mesmo, esteja aberta a uma nova investigação de sua diversidade.
A preocupação com a diversidade das sociedades do passado e a configuração de sua memória como ancestralidade, são urgentes a fim de que uma reflexão sobre o passado consciente das armadilhas do “presentismo” promova uma cultura em que ele se torne memória viva, inclusiva, e para que o presente e o futuro possam se libertar das ameaças autoritárias das “políticas da eternidade” (Th. Snyder, B. Teitelbaum).

Tradição clássica e passado remoto

Os estudos clássicos – aqui compreendidos, em linhas gerais, os estudos dedicados à civilização greco-romana e àquelas que a tomaram como base – têm lugar de destaque em todas as mais reputadas instituições de ensino e pesquisa do mundo. Esse fato, além de evidenciar sua importância para a produção de conhecimento desde a origem das modernas instituições universitárias, também reflete seu papel estratégico no estudo das sociedades antigas. O primeiro fator a explicar isso é a posição do mundo clássico na história dos registros escritos. Sem esquecermos o aprendizado das sociedades clássicas com o mundo circundante, foram elas que deram um passo decisivo no desenvolvimento, conservação e divulgação de uma tradição transformada pelo seu presente, a qual conhecemos através dos registros escritos e arqueológicos, no âmbito da filosofia, da produção literária, e da história. 
Praticamente contemporâneas, essas três expressões escritas são a base da formação classicista, seja do profissional da história, da literatura, da filologia, da linguística, da arqueologia ou da filosofia, seja das ciências modernas como um todo, advindas de tal produção intelectual. Por sua natureza, os estudos clássicos foram interdisciplinares avant la lettre, pois realizados sempre em espírito de profunda cooperação, interdependência e complexidade e densidade conceitual, teórica e metodológica. O estudo da literatura grega e latina, por exemplo, dialoga com dados e de paradigmas propiciados pela arqueologia, pela história, pela antropologia, pelo estudo das religiões, pela filologia clássica etc. – e, assim, reciprocamente. Cumpre ressaltar ainda a importância dos estudos denominados “pós-clássicos” (Antiguidade Tardia, Idade Média, interpretações e usos modernos da Antiguidade etc.), reconhecidos cada vez mais como fundamentais para a compreensão dos períodos anteriores e da Modernidade, mas também para o conhecimento crítico de sua construção histórica, notadamente no século XIX.
Com efeito, a qualidade material dos testemunhos do mundo antigo clássico e pós-clássico (nomenclaturas que, como toda a classificação temporal, adotamos de forma sempre provisória e criticamente) e a preservação de seus artefatos fizeram de seu estudo um laboratório de metodologias para a abordagem de outras sociedades do passado distante. Desse modo, os estudos clássicos e pós-clássicos, se tornaram o epicentro das grandes transformações teóricas e metodológicas que tiveram impacto sobre as humanidades desde o século XVIII. Podemos citar a contribuição de autores de diversas áreas e vertentes, como Edward Gibbon, Friedrich Creuzer, Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff, Friedrich Nietzsche, Theodor Mommsen, Fustel de Coulanges, Paul Veyne, Marc Bloch e Georges Duby. Lembremos também a importância da formação clássica na produção intelectual de pensadores mais recentes que foram capazes de apresentar uma visão crítica da modernidade plena de consequências como Hannah Arendt, Michel Foucault, Reinhart Koselleck, Paolo Prodi e Giorgio Agamben.
O estudo da tradição clássica não se encerra em si mesmo. Ele é também o estudo da sua recepção, a começar pelas construções particulares e ainda muito impactantes que foram apresentadas pelos estudiosos desde a Antiguidade Tardia mesma, chegando aos tempos atuais. O papel do século XIX na conformação de nossa visão de mundo (inclusive da perspectiva acadêmica, na configuração das universidades modernas) e, nele, a posição estratégica que foi conferida a uma certa visão do mundo clássico, recomendam que os percursos de desconstrução dessas formas sejam acompanhados por uma rediscussão desses fundamentos antigos. 
Dentre outras reflexões, a reconstrução que nosso tempo se vê convidado a apresentar face à crise geral provocada pelo império da mercadoria passa pela reconsideração das sociedades pré-modernas e, em particular, das ferramentas que buscamos na Antiguidade clássica para considerá-las.  Abandonar, ignorar ou permitir o enfraquecimento da consciência do papel desse passado longínquo consiste em um perigo estrutural, que coloca em risco a legitimidade duramente reconhecida ao estudo das humanidades. É imperioso lembrar que tal legitimidade das humanidades é sustentáculo importante para a valorização dos fatos e direitos, relacionados a culturas, raças, gêneros, cujo reconhecimento se faz hoje premente.
O estudo do passado clássico, de sua transformação (da qual brota, por intermédio da Idade Média, a Modernidade e, em última análise, a Pós-Modernidade) e de sua recepção (que continua a fervilhar por meio e à revelia dos acadêmicos, impulsionando o circuito de problemas e objetos de estudo) é um bem comum que deve se somar aos saberes relativos a outros fundamentos da trajetória humana na terra. 

A presença do passado remoto

A Antiguidade – longa pré-modernidade que reúne 90% do tempo estudado pela pesquisa histórica – guarda a história dos processos de estabelecimento das sociedades humanas no planeta. Sua ligação com o presente se dá pelo resgate e estudo de artefatos, da memória cultural, de sua língua e literatura, mas também pela permanência de opções civilizacionais paralelas ao movimento ocidental de modernidade. O conhecimento das sociedades antigas, portanto, é profundamente extenso e complexo, envolvendo diferentes modelos de sociedade, do passado e do presente (E. Góes Neves), muitos dos quais ainda esperam estudos ou anunciam grandes transformações em seu conhecimento.
A maneira como o conhecimento foi organizado na modernidade, estabeleceu uma hierarquia entre padrões culturais da qual resultaram lacunas e esquecimentos. Colocando essa tradição em questão, o Centro de Estudos sobre Diversidade Antiga. Pré-história, Antiguidade e Idade Média pretende estudar experiências das sociedades humanas antigas com o objetivo de identificar diferentes respostas apresentadas às demandas da reprodução social.
Da política ao meio ambiente, a crise da modernidade decorre da insuficiência da univocidade. A crítica aos fundamentos da crise, no entanto, ameaça conduzir a reações extremas que podem resvalar em uma recusa do passado confundido com o próprio presente que é submetido a exame. Nesse sentido, o “presentismo” reproduz a conduta moderna em relação ao passado, atribuindo ao presente uma capacidade onipotente em relação à determinação do futuro. A proposta do Centro de Estudos sobre Diversidade Antiga. Pré-história, Antiguidade e Idade Média é, ao contrário, resgatar a diversidade do passado e, superando as hierarquias herdadas, colocar as experiências em diálogos em torno de problemas de interesse comum. Espera-se dessa forma contribuir para que o passado deixe de ser vivido como tradição – valores transmitidos com a finalidade de estabelecer e reproduzir padrões emanados de ambientes restritos hierarquicamente dominantes – e se torne ancestralidade, matéria viva, complexa e inclusiva para a reflexão coletiva sobre o presente e o futuro. Do estudo da diversidade nas sociedades antigas, pretendemos compor um painel que desafie as imaginações e enriqueça reflexões.

Objetivos

Objetivos gerais

  • Desenvolver pesquisa sobre problemáticas comuns que fomentem abordagens comparativas e multidisciplinares envolvendo sociedades Antigas com ou sem escrita e sua experiência com e na diversidade;
  • Identificar, compreender e agregar à memória dos estudos culturas não europeias em sua manifestação – como referencial ou potencialidade – tanto fora quanto dentro da experiência europeia;
  • Contribuir para o conhecimento da diversidade e conectividades das experiências sociais e socioambientais;
  • Formação de pesquisadores de sociedades Antigas habilitados a contribuir para o aprofundamento e difusão da proposta, ampliando a interação entre a reflexão sobre o passado longínquo e as demandas presentes em uma perspectiva planetária;
  • Estabelecimento de convênios e outras formas de cooperação nacional e internacional visando ao aprimoramento das discussões e resultados de pesquisa;
  • Fomento à renovação das pesquisas sobre sociedades Antigas;
  • Fortalecer a divulgação dos estudos sobre sociedades Antigas desenvolvidos na Unicamp.

Objetivos específicos

  • Realização de seminários a cada dois meses em torno dos projetos de pesquisa do Centro;
  • Realização de seminários internacionais bienais em torno de problemática comum;
  • Promoção de intercâmbios nacionais e internacionais;
  • Levantamento sistemático da situação dos egressos em estudos Antigos da Unicamp;
  • Levantamento sistemático da internacionalização e inserção institucional da área;
  • Publicação dos resultados dos seminários bienais;
  • Disponibilização de material produzido pelo Centro e de material de referência de suas pesquisas;
  • Apoio às revistas de estudos Antigos, Clássicos e Pós-Clássicos que já existem no IFCH e no IEL;
  • Oferta de cursos e minicursos interdisciplinares sobre as temáticas de interesse do Centro.
    Objetivos específicos ao biênio 2023-2025
  • Realização de seminário internacional híbrido de lançamento do Centro
  • Encaminhamento de proposta de criação de Certificação para percurso formativo em estudos Clássicos e Pós-Clássicos ou Antigos para os estudantes dos cursos de graduação da Unicamp representados no Centro
  • Desenvolvimento das mídias do Centro para comunicação e divulgação (site/banco de dados) e extensão (redes sociais);

Objetivos específicos ao biênio 2023-2025

  • Realização de seminário internacional híbrido de lançamento do Centro
  • Encaminhamento de proposta de criação de Certificação para percurso formativo em estudos Clássicos e Pós-Clássicos ou Antigos para os estudantes dos cursos de graduação da Unicamp representados no Centro
  • Desenvolvimento das mídias do Centro para comunicação e divulgação (site/banco de dados) e extensão (redes sociais);