24/09 - Auditório IEL

08h30

Recepção

09h00

Abertura

09h30 – 10h40

Conferência de Abertura:

Da Idade Média a Fernão de Oliveira,

o primeiro gramático da lusofonia

Carlos Assunção

10h40

Intervalo

11h00 – 12h40

MESA I

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Teoria de Linguagem

Língua e ideologia em Fernão de Oliveira

Mário Alberto Perini

A obra de Fernão de Oliveira:

uma téchne do uso lingüístico no século XVI

Maria Helena de Moura Neves

A teoria da linguagem de Fernão de Oliveira

José Borges Neto

12h40

Almoço

14h30 – 16h10

MESA II

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Fonética e Fonologia

Fernão de Oliveira: as reflexões fonológicas

de um autor do século XVI

Maria Bernadete Marques Abaurre

Ortografia e fonética na Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536) de Fernão de Oliveira

Luiz Carlos Cagliari

A sílaba em Fernão de Oliveira

Leda Bisol

16h10

Intervalo

16h30 – 17h50

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES I

Fernão de Oliveira leitor e propagador de Quintiliano?

Dois momentos na história do conceito de ‘uso’ lingüístico

Marcos A. Pereira

Fernão de Oliveira e a retórica

Eliana Amarante de Mendonça Mendes

As referências citadas na gramática

de Fernão de Oliveira como instrumento

para a reconstrução do contexto histórico da época

Maria Mercedes Saraiva Hackerott

Nancy Casagrande

Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos

 

  

 25/09 - Auditório IEL

 

09h00 – 10h40

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES II

A influência do contexto histórico-social na reflexão

de Fernão de Oliveira: língua e sociedade

na Gramática da Linguagem Portuguesa (1536)

Eunice Nicolau

O audaz Oliveira: uma aventura metalingüística

Sônia Bastos Borba Costa

Fernão de Oliveira e Duarte Nunes Leão:

um estudo comparativo

Maria Antonieta Cohen

Língua e poder: embates lingüísticos entre Portugal e Espanha nos gramáticos portugueses do século XVI

Thiago César Viana Lopes Saltarelli

10h40

Intervalo

11h00 – 12h40

MESA III

Grammatica da Lingoagem Portuguesa:

Linguagem e Sociedade

A noção de ‘boa língua’ em Fernão de Oliveira:

o uso como fundamento

Tânia Alkmim

Fernão de Oliveira e a Sociolingüística

Dinah Callou

A nobreza da Língua e da Nação: o trabalho

de Fernão de Oliveira e a constituição da gramática no Brasil

Emílio Pagotto

12h40

Almoço

14h30 – 16h10

MESA IV               

Grammatica da Lingoagem Portuguesa:

Morfossintaxe e Léxico

A sintaxe de Fernão de Oliveira

Charlotte Galves

Algumas concepções de sintaxe em Fernão de Oliveira

Maria Eugênia Lamoglia Duarte

Palavras próprias e alheias

Eduardo Guimarães

16h10

Intervalo

16h30 – 18h30

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES III

Fernão de Oliveira: um precursor dos estudos fonológicos

Mário Eduardo Viaro

Fernão de Oliveira e João de Barros: alguns aspectos

de seus projetos ortográficos para a Língua Portuguesa

Nazarete de Sousa

A formação do plural dos nomes terminados em –ão

nas gramáticas de Fernão de Oliveira e João de Barros

Soélis Teixeira do Prado Mendes

Verbos de padrão especial, ou irregulares,

no português do século XVI: um estudo comparativo

entre Fernão de Oliveira e João de Barros

Zenaide de Oliveira Novais Carneiro

Mudança lingüística e análise gramatical:

o caso do pronome se nos gramáticos dos séculos XVI e XVII

Sílvia Regina de Oliveira Cavalcanti

 

 

  26/09 - Auditório IEL

 

09h00 – 10h40

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES IV

Letra e alfabeto em Fernão de Oliveira

e outros gramáticos do século XVI

José Horta Nunes

A Grammatica da Lingoagem Portuguesa de Fernão de Oliveira

no contexto da gramatização

Cesar Augusto de Oliveira Casella

Seis gramáticas no bosque da identificação

Charlene M. Miotti

Nós, eles: o pertencimento da língua em Fernão de Oliveira

Carolina P. Fedatto

10h40

Intervalo

11h00 – 12h40

Sessão de encerramento:

O legado de Fernão de Oliveira

para as reflexões lingüísticas sobre o português

A Gramática da Linguagem na Gramática da Língua:

o legado de Fernão de Oliveira no discurso de João de Barros

Marli Quadros Leite

Com a palavra Fernão de Oliveira: um estudo

sobre o conceito de palavra  na Língua Portuguesa

Margarida Basílio

“...porque das coisas nascem as palavras,

e não das palavras as coisas”

Eni P. Orlandi

 

 

 

 

conferência de abertura

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Da Idade Média a Fernão de Oliveira, 

o primeiro gramático da lusofonia

Carlos Assunção (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

É objectivo desta comunicação apresentar, num primeiro momento, breves nótulas (1) sobre as fontes sustentadoras dos estudos gramaticais do Latim, promovidos pelos clérigos, no seio do espaço geográfico que veio a ser Portugal, no final da alta Idade Média e princípio da baixa Idade Média, época que testemunha, precisamente, a fundação do Estado, (2) sobre o primeiro estudo metalinguístico feito em Português Arcaico, embora ainda a respeito da língua latina, na centúria de Trezentos, depois de se haver presenciado o término da situação linguística diglóssica – verificado mais tardiamente na Península Ibérica – que havia caracterizado toda a Cristandade e a consequente assumpção do Português como língua oficial do país, bem como (3) sobre o contexto em que vem a lume a primeira codificação da língua portuguesa, já na época do Renascimento e da expansão ultramarina, que, ao proporcionar o desencravamento planetário, abriu, também sob o ponto de vista linguístico, novas perspectivas aos gramáticos de então. Num segundo momento, far-se-á uma leitura dos aspectos linguísticos mais relevantes da obra de Oliveira (1) informações de carácter fonético e ortográfico, (2) a dinâmica linguística e o cuidado a observar na recepção e adaptação de estrangeirismos, (3) o estudo das palavras, ou dicções, primitivas, compostas, derivadas, os arcaísmos e neologismos, o valor semântico dos prefixos, as flexões nominais e verbais, bem como a evolução semântica dos vocábulos e (4) o parco desenvolvimento dado à sintaxe, à semelhança do que se verificava nas gramáticas latinas.             TOPO

  

mesas-redondas

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24/09, 11h00: MESA I

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Teoria de Linguagem

 

 

A obra de Fernão d´Oliveira: uma téchne do uso lingüístico no século XVI

Maria Helena de Moura Neves  (Universidade Presbiteriana Mackenzie; UNESP-Araraquara / CNPq)

Parto da concepção de que o manual de gramática – tanto quanto o dicionário –, do modo como o vemos no Ocidente, é um “instrumento lingüístico”, um “objeto técnico” (Auroux, 1998) como qualquer outro que a sociedade utiliza, e, portanto, tem valor operacional na revelação dos compromissos teórico-filosóficos de base de quem o produz. Com essa premissa ponho sob observação a descrição da “lingoagem portuguesa” que Fernão d’Oliveira nos legou, entendendo-a, em primeiro lugar, como uma téchne de moldes originais. Nessa linha, estabeleço uma avaliação dos aspectos em que ela se distancia das téchnes ocidentais inaugurais, dirigindo-me especialmente para o que nela se pode depreender da concepção do autor sobre a relação entre língua e linguagem, e, portanto, entre sistema e uso. Pela natureza do trabalho de Fernão d’Oliveira, tomo exatamente o uso como ponto de referência das reflexões, o que me leva de volta à clássica discussão que, na análise da natureza da linguagem, envolveu historicamente a dicotomia analogia x anomalia (com implicação da etimologia e da norma de excelência), dicotomia que o gramático contempla, em particular, na sua relação com a sanção de uso.  Nesse exame da obra de Fernão d’Oliveira o que ensaio, afinal, é uma busca das características de que ela se reveste como uma original gramática do uso lingüístico no século XVI.       TOPO

 

 

A teoria da linguagem de Fernão de Oliveira

José Borges Neto (UFPR/CNPq)

No momento de se fazer a história do pensamento lingüístico, cede-se facilmente à tentação ou de enaltecer ou de criticar excessivamente nossos antepassados: atitudes inadequadas, todas as duas. Ao nos voltarmos ao pensamento de Fernão de Oliveira, não podemos esquecer que ele viveu inteiramente no século XVI (nasceu em Aveiro, em 1507, e morreu, provavelmente, em 1581) e que apesar de ser um homem de capacidade intelectual privilegiada e crítico dos modos tradicionais de pensar, seu pensamento, ao fim e ao cabo, não podia exceder significativamente o pensamento médio de um homem do séc. XVI. Em suma, Fernão de Oliveira – padre, soldado e aventureiro, crítico severo da atuação política e religiosa da Igreja em Portugal – é um homem típico do Renascimento. Seu pensamento lingüístico ignora o modo de pensar a linguagem próprio da Idade Média (particularmente o pensamento modista) e se volta aos trabalhos da época clássica. Juntamente com João de Barros, seu contemporâneo e amigo, faz uma gramática da língua portuguesa que mantém essencialmente inalterada a teoria da linguagem desenvolvida a partir da lógica aristotélica e dos estudos alexandrinos. Podemos reencontrar na Gramática de Fernão de Oliveira, então, basicamente o esquema gramatical que encontramos já em Dionísio Trácio (circa 100 a.C.), levando à conclusão de que, apesar dos méritos evidentes de arguto observador dos dados da língua portuguesa, principalmente no campo da fonologia, Fernão de Oliveira nada inovou em termos de uma teoria da linguagem.     TOPO

 

 


 

 

24/09, 14h30: MESA II

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Fonética e Fonologia

 

 

Fernão de Oliveira: as “reflexões fonológicas” de um autor do século XVI

Maria Bernadete Marques Abaurre (Unicamp/CNPq)

Pode parecer inadequado discutir as reflexões fonológicas do autor da Gramática da Linguagem Portuguesa, obra escrita no século XVI, quando a Fonologia sequer se havia constituído como disciplina com um objeto próprio. As considerações sobre os fatos fônicos costumavam englobar todos os aspectos que chamavam a atenção dos autores das gramáticas, independentemente da sua função nas línguas que começavam a ser objeto de análise, e os autores das gramáticas, muitas vezes, não distinguiam adequadamente a fala da sua representação escrita. O texto de Fernão de Oliveira, no entanto, provoca os leitores modernos pela maneira singular como, ao falar dos aspectos fônicos do português, faz observações que poderiam bem caracterizar preocupações específicas de fonólogos modernos. Nesta comunicação, faremos uma leitura dos capítulos da Gramática da Linguagem Portuguesa dedicados aos fatos fônicos da língua, procurando identificar as pistas de uma reflexão de cunho mais fonológico por parte do autor. Merecerão particular interesse as passagens em que Fernão de Oliveira comenta, dentre outras, questões relativas à nasalidade e ao acento.     TOPO

 

 

Ortografia e fonética na Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536)
de Fernão de Oliveira

Luiz Carlos Cagliari (UNESP-Araraquara/CNPq)

A Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536) de Fernão de Oliveira (1507-1581?) representa não apenas a primeira gramática sobre o Português, escrita em Português, mas, como afirma E. Coseriu, é uma das gramáticas mais originais da Renascença na România com relação à concepção de linguagem, sua metodologia e descrição da língua. Apesar de sua importância histórica, a gramática nunca foi estudada com o devido cuidado. Tenho notícia de apenas seis edições. A segunda apareceu somente em 1871, a terceira em 1933 e a última em 2000. Mais recentemente, a obra tem despertado o interesse dos lingüistas, estudando-a de diversos pontos de vista. A descrição fonética que se encontra na Grammatica merece destaque, assim como sua proposta de ortografia não latinizante. Os sons da língua são descritos com precisão, com considerações de ordem sociolingüística e das variações contextuais. Sua anotações sobre a fonética da língua mostra o trabalho de um observador atento e de um espírito organizado (ele era também engenheiro naval). Sem dúvida, temos uma descrição confiável e razoavelmente completa da pronúncia padrão de que trata sua Grammatica e de algumas variantes. Há, ainda, observações sobre a estrutura silábica, a fonotática da língua e a respeito de alguns fenômenos prosódicos. Por outro lado, o modelo ortográfico proposto veio em decorrência de sua excelente observação fonética dos sons da língua. Nesse sentido, livrou-se de velhos costumes da época, enfatizando um modelo simples de grafia para as palavras, com um caráter próprio da Língua Portuguesa. Fugiu da abordagem latinizante e etimológica, e de uma tradição que tinha uma grande quantidade de modelos ortográficos, que geravam muitas grafias variantes. A sua proposta, contudo, não foi aplicada totalmente nem na sua própria obra, havendo muitos casos de dupla grafia para uma mesma palavra. Algumas de suas regras não foram seguidas, mostrando uma diferença comum naquela época entre o que dizia o texto gramatical e o que os impressores faziam. A influência do modelo ortográfico de Fernão de Oliveira, certamente, influenciou João de Barros (1540), Duarte Nunes de Leão (1606) e Álvaro Ferreira de Vera (1631), e pode ser vista até na obra de Gonçalves Viana.    TOPO

 

 

A sílaba em Fernão de Oliveira

Leda Bisol (PUCRS/CNPq)

Ver a sílaba em Fernão de Oliveira com os óculos de uma visão moderna de sílaba parece irrisório, inadequado, imprudente, não só porque muitos séculos nos separam mas sobretudo porque Fernão de Oliveira, para a descrição do português, contou apenas com  as lições da gramática castelhana de Antonio de Nebrija, o seu impulso, como ele mesmo afirma, enquanto uma descrição moderna de sílaba tem todo o aparato da Teoria Lingüística, cujos princípios começaram a delinear-se nos estudos comparativos do  século dezenove e firmam-se na gramática sincrônica em pleno século vinte. Há ainda a considerar que a Lingüística  sobrepõe a fala à escrita, enquanto em tempos de Fernão de Oliveira essa distinção não estava claramente posta. Em sua gramática, oscilam som e letra, como exemplificam as seguintes citações: “Sílaba é uma só voz, formada com letra ou letras”; “as nossas sílabas nunca se começam em duas letras de diversa natureza, como sperança, mas sempre lhes daremos nos começos das vozes uma vogal que soe com a primeira  letra, como esperança e estrado”. No entanto são as sutilezas dessas e de outras observações que cativam, motivam e justificam este estudo, pois remontam a pontos essenciais que não podem ser negligenciados, e que persistem, independentemente do dialeto do português, da época da descrição e dos fundamentos teóricos que a sustentam.    TOPO

 

 


 

 

 25/09, 11h00: MESA III

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Linguagem e Sociedade

 

 

A noção de ‘boa língua’ em Fernão de Oliveira:

o uso como fundamento

Tânia Alkmim (Unicamp)

O presente trabalho se propõe a caracterizar o conceito de ‘boa língua’ em Fernão de Oliveira. Serão identificados diferentes aspectos relacionados ao uso apontados pelo autor assim como a sua posição em relação aos arcaísmos e neologismos lingüísticos.    TOPO

 

 

Fernão de Oliveira e a Sociolingüística

Dinah Callou (UFRJ/CNPq)

O papel relevante, no âmbito dos estudos lingüísticos contemporâneos, que assume a Gramática de Fernão de Oliveira não advém apenas do fato de ser a primeira gramática da língua portuguesa, mas também do de trazer à tona, no século XVI, fundamentos que constituem o carro-chefe da sociolingüística laboviana, como os da variação de gênero e faixa etária, além da variação diatópica, premissa da Dialectologia. No presente trabalho, procura-se relacionar esses fundamentos, na tentativa de situar o caráter sociolingüístico da obra de Oliveira tanto no contexto renascentista como no conjunto de trabalhos que marcaram a história das idéias gramaticais sobre o português.     TOPO

 

  

A nobreza da língua e da nação: o trabalho de Fernão de Oliveira

e a constituição da gramática no Brasil

Emilio Pagotto (UFSC)

Um dos aspectos mais interessantes em Fernão de Oliveira é como constrói sua argumentação em torno da possibilidade da gramática da língua portuguesa à luz da herança greco-latina. Antes de escrever a gramática, é preciso afirmá-la possível. É preciso equiparar o português à altura do latim, capaz de receber o mesmo tratamento - movimento típico do renascimento, no qual tradição e modernidade se unem para fundar um novo mundo. Fernão de Oliveira recoloca a tradição, fazendo-a funcionar para a nova língua – o português – que experimenta o contato inovador com a gramatização e a regularização gramatical, ainda que existisse como “língua de fato”, há mais de três séculos aproximadamente. Quatrocentos anos depois, observamos no Brasil um movimento semelhante. Tratou-se de recolocar, novamente, a tradição para funcionar numa nova língua, o português do Brasil. A tradição gramatical brasileira incipiente precisou lidar com a delicada questão de admitir ou não uma nova língua, para então aplicar a ela os modelos da tradição, como Fernão de Oliveira fizera anteriormente. Os contextos históricos de um e outro movimento guardam pelo menos uma semelhança importante: tratava-se da afirmação da nacionalidade, da grandeza da nação à qual corresponderia uma língua, concebida nos moldes clássicos. Enquanto para Oliveira a afirmação de uma língua nacional plena tem no contexto histórico um terreno favorável, no Brasil do século XIX, se fará o movimento inverso: constrói-se uma unidade normativa com Portugal, ao mesmo tempo em que se constrói um saber metalingüístico independente. Isto se dá pela complexidade na qual a identidade brasileira é constituída: uma sociedade escravocrata e mestiça que não se quer como tal. Entre o povo e a nação há uma lacuna. Aqui, a língua constituída nos moldes clássicos se torna baliza de uma nação excludente. Instaura-se entre os falantes e a língua uma ruptura que se perpetuará até os dias de hoje.     TOPO

 

 


 

 

25/09, 14h30: MESA IV

Grammatica da Lingoagem Portuguesa: Léxico e Morfossintaxe

 

 

A sintaxe de Fernão de Oliveira

Charlotte Galves (Unicamp)

No penúltimo capítulo – e ‘derradeira parte’- da sua gramática, Fernão de Oliveira nos promete uma obra sobre ‘[a] composição ou concerto que as partes ou dições da nossa língua têm antre si ... a qual os gramáticos chamam construição’, dizendo ele que tem “começada, h˜ua obra em que particularmente e com mais comprimento falamos della”. Enquanto não aparece o manuscrito dessa obra, se é que chegou a ser escrita, só nos resta inferir da única parte impressa do projeto gramatical do autor elementos do que seria a sintaxe padrão da época, a partir do uso que o primeiro gramático da lingua faz dela, na imitação dos ‘homens que se entendem e sabem o que falam’. É o que me proponho a fazer nessa comunicação, estudando alguns aspectos da sintaxe de Fernão de Oliveira em comparação com outros autores do seu tempo, no quadro geral da história da língua portuguesa.      TOPO

 

 

Algumas concepções sobre sintaxe em Fernão de Oliveira

Maria Eugenia Lamoglia Duarte (UFRJ/CNPq)

Fernão de Oliveira deixa claro que sua intenção na Grammatica não é tratar da construição – “a composição ou o concerto que as partes ou dicções têm entre si” – mas “apontar os principios da grammatica que temos na nossa língua”, uma vez que tem “começada uma obra em que particularmente e com mais cumprimento fala dela”. Ao leitor atento, contudo, não faltam observações do autor que revelam sua concepção acerca de alguns fenômenos relativos à sintaxe, entre os quais (a) as conseqüências da ausência das marcas casuais no português, particularmente o “ajuntamento dos artigos aos nomes”; (b) a fixação da ordem para permitir a identificação do “estado das cousas”, ou seja, dos “ofícios” ou funções desses nomes; (c) um interessante tratamento do artigo, que abarca a categoria que se fixou nas gramáticas como artigo definido e o clítico acusativo, para o autor um artigo “relativo”, diferente dos demais; (d) a ocorrência de marcas casuais nos artigos (nominativo, genitivo, dativo e acusativo), que se realizam através da preposição. As duas últimas observações, que se perderam na tradição gramatical, retornam hoje aos estudos lingüísticos em propostas recentes no âmbito da teoria gerativa.     TOPO

 

 

Palavras próprias e alheias

Eduardo Guimarães (Unicamp/CNPq)

Pode-se dizer que A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira se dedica ao estudo da palavra: sua constituição “sonora-escrita” (do capitulo I ao capítulo XXIX); sua natureza (do capítulo XXX ao capítulo XXXIX); sua morfologia (do capítulo XL ao capítulo L). Vamos nos dedicar ao que chamei aqui natureza da palavra. Este aspecto aparece nos capítulos de XXX a XXXIX que tratam do que ele chama Dicções. Para ele dicção, como sabemos, é vocábulo, palavra. Ao estudar estas dicções ele vai distinguir vários tipos e, entre eles, as dicções próprias e as alheias, através do que ele reflete sobre uma língua (com suas palavras próprias) e sua relação com outras línguas (que dão à primeira as palavras alheias). Nosso objetivo é tratar desta distinção e de como ela acaba por implicitar um certo sentido de organização interna da língua.   TOPO

 

 


 

 

26/07, 11h00: SESSÃO DE ENCERRAMENTO

 

O legado de Fernão de Oliveira para

as reflexões lingüísticas sobre o português

 

 

A Gramática da Linguagem na Gramática da Língua:
o legado de Fernão de Oliveira no discurso de João de Barros

Marli Quadros Leite (USP)

Neste trabalho, pretende-se mostrar, por meio da análise dos discursos de Fernão de Oliveira, na Gramática da Linguagem Portuguesa, e do de João de Barros, na Gramática da Língua Portuguesa, que esse autor conheceu e dialogou com o texto daquele. A partir da técnica de análise do discurso, analisar-se-ão os conceitos de língua e linguagem, que encabeçam as duas gramáticas e são empregados por ambos os autores no corpo dos textos, e explorar-se-ão alguns pontos gramaticais tratados por ambos os gramáticos. Três critérios foram escolhidos para o tratamento desse problema: primeiro, o confronto de pontos em que os discursos de ambos os autores são, sob o ponto de vista do desenvolvimento de certos temas, coincidentes; segundo, o contraste entre pontos em que os dois discursos entram em choque, quando Barros parece contestar a teoria de Oliveira - nesse caso, contudo, não há, além do próprio desenvolvimento do tema, marcas lingüísticas que confirmem o contato de Barros com o texto de Oliveira; segundo, a comparação de pontos em que a confluência dos dois discursos pode ser reconhecida por meio de marcas lingüísticas do discurso de Barros. Assim, enfatizar-se-á que, embora a Gramática da Linguagem Portuguesa não tenha “feito escola” no desenvolvimento da teoria gramatical portuguesa, deixou marcas que os historiadores das idéias lingüísticas resgataram e resgatam até a atualidade.     TOPO

 

 

Com a palavra Fernão de Oliveira:
um estudo sobre o conceito de palavra na Língua Portuguesa

Margarida Basilio (PUC-RIO/CNPq)

Neste trabalho, proponho-me a analisar a contribuição de Fernão de Oliveira em Grammatica da Lingoagem Portuguesa para o entendimento do que seriam as palavras na Língua Portuguesa, e avaliar até que ponto e de que maneira a situação em que o trabalho foi escrito, seus objetivos e precedentes, e os possíveis modelos de descrição gramatical a que se filia o gramático interferem em suas propostas para os estudos que se desenvolvem em torno do conceito de palavra  e elementos lexicais na Língua Portuguesa. Tendo em vista que o autor trabalha numa perspectiva do modelo Palavra e Paradigma, ainda que incorporando contribuições de diferentes épocas, dentre as quais sobressaem as de autores latinos como Quintiliano e Varrão; e levando em conta a preocupação do nosso gramático com a afirmação e identidade da Língua Portuguesa, no espírito dos movimentos da época do Renascimento, num momento em que a tradição escrita em Língua Portuguesa, entretanto, está em franca construção, procurarei traçar um paralelo, inicialmente, entre as visões de nosso primeiro gramático sobre o conceito de palavra em português e o conceito de palavra que transparece em gramáticas tradicionais e normativas no Brasil; e, adicionalmente,  com um outro olhar inovador, desta vez relativo aos estudos do Português do Brasil, o do Prof. Mattoso Câmara Jr., que trata do conceito de palavra no século XX, com a Língua Portuguesa já com sua tradição escrita e gramatical plenamente estabelecida em território brasileiro, e seguindo um diferente modelo de descrição gramatical, o estruturalista. Finalmente, focalizando algumas das questões que se colocam hoje sobre o conceito de palavra e construção lexical e seus correspondentes padrões de formação, falarei sobre a importância da obra de nosso primeiro gramático no que concerne ao conceito de palavra na Língua Portuguesa.     TOPO

 

 

“...porque das coisas nascem as palavras,

 e não das palavras as coisas”

Eni Orlandi  (Unicamp/CNPq)

Tomando como referência a dedicatória e o primeiro capítulo da Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, vamos procurar situar sua concepção da linguagem no modo como os que pensam a relação pensamento/linguagem/mundo o fazem, em diferentes momentos e lugares da história das idéias lingüísticas. Em seguida, procuraremos compreender como a posição de Fernão de Oliveira faz parte de uma rede de filiações de sentidos nessa história e as conseqüências que isso produz no conjunto das reflexões sobre a linguagem, incluindo aí a contemporaneidade.      TOPO

 

 

 

comunicações

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24/09 - 16h30

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES I

 

 

Fernão de Oliveira leitor e propagador de Quintiliano?

Dois momentos na história do conceito de ‘uso’ lingüístico

Marcos A. Pereira (Unicamp)

Numerosos pontos da Grammatica da lingoagem portuguesa (1536) de Fernão de Oliveira lembram fontes da Antigüidade Clássica, com freqüência indicadas textualmente pelo autor. Dentre elas, destaca-se o retórico latino Marco Fábio Quintiliano (c.30-c.96d.C.), ao lado de Cícero, Varrão e outros. Nosso trabalho tem por meta apontar e analisar, ainda que sucintamente, os trechos da obra de Quintiliano (Institutio oratoria) evocados por Oliveira, sobretudo aqueles que dizem respeito às noções de uso, descrição e norma, com o objetivo de compreender a posição do autor de nossa primeira gramática e as relações que a obra permite, como primeiro elo de uma longa cadeia, traçar entre posições antigas e modernas acerca daqueles temas.    TOPO

 

 

Fernão de Oliveira e a retórica

Eliana Amarante de Mendonça Mendes (UFMG)

Pretendo, nesta comunicação, discutir aspectos da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, que me levaram a reconhecer nessa obra traços conservadores vinculados à tradição clássica greco-romana. Embora na visão de  estudiosos da gramática de Oliveira,  nela a retórica se restrinja a alusões a prosódias e a dicções figuradas, faltando-lhe, diferentemente de outras  gramáticas como a de Nebrija e a de João de Barros, a quarta parte dedicada à retórica, um rastreamento por mim efetuado forneceu-me evidências de uma  considerável influência da retórica clássica nessa obra. É verdade que,  explicitamente,  Fernão de Oliveira pouco incorpora as vozes da retórica em sua gramática. Recorre inúmeras vezes a Quintiliano, mas sempre quanto a aspectos gramaticais. Uma análise cuidadosa revela, no entanto, que o autor, embora considerado “moderno”, não abandonou os princípios basilares da retórica clássica. Isso, aliás, no meu entender, não poderia deixar de ser, haja vista que justamente no Renascimento a retórica ressurgia com toda a força e seria, portanto, pouco provável que Fernão de Oliveira, professor de retórica, não se encontrasse imbuído dos referidos princípios retóricos que, como pretendo mostrar,  aqui e ali se deixam flagrar em sua gramática. A retórica, no decorrer de sua longa existência, foi usada de diferentes maneiras. Cada época, cada escola, adaptou-a, e  continua adaptando-a até nossos dias, para diferentes fins, reformulando-a à sua própria imagem. Quer-me parecer que com Fernão de Oliveira não foi diferente. Considerando seu objetivo imediato — a descrição da língua portuguesa — privilegiou somente aspectos da retórica que considerou relevantes para aquela situação.    TOPO

 

 

As referências citadas na gramática de Fernão de Oliveira

como instrumento para a reconstrução do contexto teórico da época

Maria Mercedes Saraiva Hackerott (IP-PUC/SP)

Nancy Casagrande (IP-PUC/SP)

Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos (UPM, IP-PUC/SP)

A primeira gramática da língua portuguesa, de Fernão de Oliveira, Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536), está inserida no movimento renascentista, no qual ocorreu o processo de gramatização das línguas vulgares, período em que os clássicos da tradição greco-latina foram reinterpretados através das várias traduções realizadas. Eugenio Coseriu (1991:17) comenta que os autores da Antigüidade não representam, para Oliveira, um modelo determinado a ser seguido, mas um complexo universo cultural, bem característico do humanismo. Oliveira cita explicitamente Aulo Gelio, Beroso (historiador da Babilônia), Estrabão (livro da sua geografia), Catão (livro dos nascimentos), Cícero, Cornélio Frontão, Diodoro Siculo, Diogenes Laercio, Horácio (Arte Poética), Marcos Varrão (livro da etimologias), Mersilo (historiador grego), Mison (filósofo grego), Plínio (história natural), Pompeu Mel, Probo, Ptolomeu, Quintiliano (Institutio Oratoria), Suetonio (livro dos gramáticos antigos) e Vitruvio (livro dos edifícios). Do quinhentismo, Oliveira referenda apenas uma vez Antonio de Nebrija (144?-1522), autor das Gramáticas Latina (1488) e Castelhana (1492). Sabe-se que Oliveira conhecia a gramática Castelhana de Nebrija por haver entre os manuscritos autógrafos da Biblioteca Nacional de Paris uma cópia dessa gramática com punho de Oliveira, realizada provavelmente em sua estada na Espanha, após deixar o Convento dos Dominicanos em 1532. O objetivo desta comunicação é analisar a natureza dessas citações, verificando em que medida elas serviram para Fernão de Oliveira como modelo teórico ou apenas como referência contextual.    TOPO

 

 


 

 

25/09 – 09h00

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES II

 

 

A influência do contexto histórico-social

na reflexão de Fernão de Oliveira: língua e sociedade

na Gramática da Linguagem Portuguesa (1536)

Eunice Nicolau (UFMG)

A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira (impressa em Lisboa, por Germão Galharde) foi publicada em 1536, época em que Portugal buscava afirmar a sua autonomia nacional. Considerada, por Torres e Assunção (2000), como a primeira gramática publicada em língua portuguesa, além de primeiro exemplo de gramática descritivo-normativa, inclui 50 capítulos, nos quais, Fernão de Oliveira organiza “anotações do bõ costume” de falar dos portugueses, partindo da definição da linguagem como uma "figura de entendimento" concedida, por Deus, aos homens. Na interpretação de Coseriu (2000), essa definição de linguagem opõe-se à concepção de língua como obra dos homens, defendida por Fernão de Oliveira, que relaciona a configuração de uma determinada língua ao desenvolvimento cultural dos seus falantes. Em consonância com tal concepção, segundo Coseriu, encontram-se, na Gramática da Linguagem Portuguesa: a concepção de “língua histórica” como “usus” (ou seja, ‘costume’) e a definição das regras de uma língua como “regras do costume, isto é, normas sociais e históricas”. Não há dúvida de que, por um lado, a Gramática de Fernão de Oliveira deixa entrever, claramente, a concepção de língua como um fato humano e, portanto, social, o que aponta para a sua inevitável mutabilidade. Essa concepção de língua – que só na segunda metade do século XX vai ser considerada como um dos fundamentos cruciais para a construção de uma teoria lingüística – é a base da Sociolingüística Variacionista (Labov, 1972, 2001), no âmbito da qual, o caráter mutável da língua enquanto um fato humano é que implica a existência da variação como inerente a todo sistema lingüístico. Assim, é possível afirmar que a concepção de língua e a definição das regras de uma língua assumidas na referida Gramática revelam Fernão de Oliveira como um estudioso já consciente da existência da variabilidade lingüística. No entanto, por outro lado, encontram-se, nessa mesma Gramática, juízos de valor dos usos lingüísticos apontando para uma postura de Fernão de Oliveira diante da relação entre língua e sociedade, que é cabalmente refutada pela Sociolingüística Variacionista. É essa postura que o presente estudo focaliza, com o objetivo de mostrar que, conforme bem ressalta Coseriu, “nem tudo o que aparece em Oliveira é para ser avaliado como positivo” e que a avaliação das idéias defendidas através da referida Gramática não pode negligenciar a pretensão de seu autor de propor uma norma para o português do século XVI e passar, para a escrita, um sistema lingüístico que caracterize uma nova nação.    TOPO

 

 

O audaz Oliveira: uma aventura metalingüística

Sônia Bastos Borba Costa (PROHPOR – DLV – IV / UFBA)

O trabalho resulta de observações da Gramática da Linguagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, a partir da edição semidiplomática realizada por Torres e Assunção (2000), privilegiando aspectos inovadores do texto do autor, reflexos de mudanças do português quinhentista em relação ao período arcaico da língua portuguesa; o alegado caráter descritivo do seu texto; a sua abordagem do léxico e a sua utilização de itens adverbiais de natureza espacial e temporal. O caráter descritivo será abordado tomando sobretudo por base um paralelo com a gramática de João de Barros, de 1540, considerada a primeira gramática normativa do português. A abordagem do léxico privilegiará a visão de Oliveira sobre itens considerados arcaísmos e neologismos, à sua época, também em confronto parcial com Barros; por fim, a seção relativa à utilização de itens adverbiais pelo gramático apresenta resultado de pesquisa encetada quando da realização de tese de doutorado da autora e privilegia a concepção de espaço e tempo explicitada por esses itens e seus usos inovadores em relação  ao português arcaico.    TOPO

 

 

Fernão de Oliveira e Duarte Nunes Leão: um estudo comparativo

Maria Antonieta Cohen (FALE/UFMG)

Propomo-nos efetuar uma comparação entre a Gramática da Lingoagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, de 1536, e a Origem da Língua Portuguesa de Duarte Nunes Leão, de 1604, que guardam entre si um intervalo de tempo de aproximadamente 70 anos. Serão utilizadas a edição de Torres & Assunção (2000) da Gramática de Oliveira, e a de Buescu (1983) da Origem de Duarte Nunes Leão. Utilizaremos tanto a edição crítica quanto a semidiplomática da Gramática de Oliveira; para a Origem, apenas a edição de Buescu. Interessa-nos exercer essa comparação motivados pelos comentários de Coseriu (2000) sobre a primeira, ao tentar encaixá-la numa perspectiva românica, e ao mencionar que “suas idéias sobre a história da língua (portuguesa) são, na maioria das vezes, ingénuas ou erradas” (p.32). Através do cotejo e comentário das passagens de Fernão de Oliveira que mencionam questões relativas à “diversificação interna da língua histórica”, à mudança lingüística e à história da língua portuguesa com as de Duarte Nunes Leão em que o mesmo tema é tratado, embora muito mais extensamente, esperamos contribuir para um melhor entendimento do pensamento desses dois gramáticos antigos no que se refere às questões históricas e diacrônicas. Como se sabe, Oliveira é conhecido como um sincronista, descritivista, ao passo que Duarte Nunes Leão escreveu uma Origem da Língua Portuguesa, em uma perspectiva, em algum sentido, histórica. Apesar disso não se exclui a possibilidade de se evidenciar em Oliveira indícios sobre pontos-de-vista não tão explícitos sobre a evolução da língua portuguesa em particular e das línguas em geral.   TOPO

 

 

Língua e poder: embates lingüísticos entre Portugal e Espanha

nos gramáticos portugueses do século XVI

Thiago César Viana Lopes Saltarelli (UFMG)

Esta comunicação procura evidenciar como os primeiros gramáticos portugueses, como Fernão de Oliveira, João de Barros e Duarte Nunes de Leão, já demonstram em seus trabalhos uma percepção da variação lingüística – embora não se mantenham imparciais em relação a esse fenômeno – bem como uma acurada visão da língua enquanto instrumento de poder. Essa visão leva-os a realizar uma apologia da língua portuguesa que, por um lado, significa uma valorização das línguas românicas em relação ao latim e ao grego e, por outro, representa o projeto português de expansão do poder colonizador e o embate contra a Espanha e a língua castelhana. Essa disputa é oriunda de todo um contexto histórico, social e cultural da Península Ibérica, cuja dimensão lingüística se manifesta, dentre outros modos, pela situação de bilingüismo que caracteriza a produção literária desde a Idade Média, abarcando Gil Vicente e Camões, por exemplo. A partir do século XVI, tal disputa atingirá seu ápice, precisamente a partir de 1580, com a anexação de Portugal pela coroa espanhola. Assim, concluímos que a reflexão dos gramáticos portugueses do Renascimento, ao estabelecer relações entre língua e poder, parece antever um período de confrontos políticos, lingüísticos e literários entre Portugal e Espanha, o qual se estenderá pelo século XVII.  TOPO

 

 


 

 

25/09 – 16h10

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES III

 

 

Fernão de Oliveira: um precursor dos estudos fonológicos

Mário Eduardo Viaro (USP)

Chega a impressionar como Fernão de Oliveira se encontra marginalmente nos manuais de História da Lingüística ou de Filologia Românica, quando não é de todo ignorado. Mesmo numa obra tão informativa como o Grundriß der romanischen Philologie de G. GRÖBER (v.1, 1888), Oliveira é colocado no mesmo patamar que J. de Barros, Nunes de Leão e F. Barreto. Todos esses autores, segundo Gröber, têm obras “muito mais modestas”, quando comparadas com as gramáticas espanholas: “weit bescheidenere Grenze noch als in Spanien hält die Beschäftigung mit vaterländischer Sprache und Litteratur in Portugal ein” (1888: 31-32). É verdade que esses autores portugueses têm entre si muita semelhança, sobretudo na terminologia, uma vez que representam elos de uma corrente contínua da tradição gramatical, desde os gregos e romanos. Todavia, como já afirmara COSERIU (1991: 15-20), a agudeza da percepção de Oliveira supera a todos em muitos momentos, não revelando, de modo algum, uma transmissão pacífica e acrítica da terminologia tradicional, como se vê em muitos contemporâneos seus. Pelo contrário, a leitura de Oliveira causa agradável admiração ainda hoje pela detalhada descrição dos pontos de articulação, a qual se aproxima muito da fonética moderna. Não só a fonética articulatória de Oliveira impressiona: logo se verifica uma tendência maior à abstração, sempre no nível sincrônico, que poderia sem dúvida colocá-lo como um notável precursor dos estudos fonológicos. É o escopo de nosso trabalho verificar na sua Grammatica da lingoagem portuguesa (1536) a terminologia relativa ao estudo dos sons e separar tudo quanto seja pertencente a uma tradição daquilo que seja, supostamente, original.   TOPO

 

 

Fernão de Oliveira e João de Barros: alguns aspectos

de seus projetos ortográficos para a Língua Portuguesa

Nazarete de Souza (Unicamp)

Quando o Renascimento se expandiu pela Europa difundindo uma manifestação cultural caracterizada pela passagem de uma visão teocêntrica de mundo para uma visão antropocêntrica, o homem aplicou o seu espírito crítico em todos os setores do saber humano, rejeitando os valores medievais da época dentro dos quais ele, homem, era subjugado à vontade divina. Em meio à efervescência renascentista, foi levantada também a "questão da língua". Por "questão da língua" entende-se a tomada de consciência da legitimidade das línguas vernáculas em relação ao latim. As línguas vernáculas vão progressiva e definitivamente substituindo o latim nos níveis literário, científico e administrativo. Dentro desse contexto impõe-se o problema da escrita, uma vez que as línguas vernáculas, já distanciadas do latim, não possuíam um sistema de escrita próprio e se baseavam no modelo latino. Junto à preocupação em sistematizar gramaticalmente tais línguas, impunha-se também a preocupação em uniformizar a ortografia, pois se a escrita já se constituía complexa estando subordinada ao sistema latino, ao romper com este os usuários da escrita se viram sem um sistema estabelecido para seguirem. Em Portugal, seguindo o que se passava em outros territórios românicos, os eruditos também se empenharam no sentido de codificar a língua materna. Conseqüentemente, são muitas as receitas para o bem escrever o português. Surgem decretos, tratados ortográficos, cartinhas e gramáticas. Dentre os primeiros teóricos da Língua Portuguesa destacam-se Fernão de Oliveira e João de Barros. O primeiro é responsável pela Gramática da linguagem portuguesa (1536) e o segundo é autor da Gramática da língua portuguesa, seguida de diálogo em louvor da nossa linguagem (1540). Os trabalhos de Fernão de Oliveira e João de Barros merecem destaque pelo fato de que os seus projetos ortográficos procuraram singularizar as peculiaridades do português em relação ao sistema ortográfico latino.  Isso não isenta, todavia, tais gramáticas de apresentarem muitas contradições. Fernão de Oliveira, por exemplo, preconizou um sistema ortográfico regular e simplificado, mas nem ele próprio seguiu suas regras. Pretendo, no presente trabalho, apresentar os dois gramáticos – Fernão de Oliveira e João de Barros – assim como alguns aspectos de suas respectivas gramáticas, destacando a importância das mesmas para a efetivação de uma ortografia da Língua Portuguesa.      TOPO

 

 

A formação do plural dos nomes terminados em –ão

nas gramáticas de Fernão de Oliveira e de João de Barros

Soélis Teixeira de Prado Mendes (FALE/UFMG/FAPEMIG)

Embora a obra de Oliveira, segundo Coseriu (apud  TORRES, Amadeu; ASSUNÇÃO, Carlos, 2000. p. 33) esteja, "Porém, no domínio sincrónico e, neste, predominantemente na área da fonética.", verificamos que o gramático português procura, em algumas partes de seu trabalho, oferecer uma análise diacrônica para alguns fenômenos, espeficamente  na "declinação dos nomes". Assim, nesta comunicação, vamos fazer um cotejo entre as duas primeiras gramáticas portuguesas, quanto à variação da formação do plural dos nomes terminados em -ão. Enquanto Fernão de Oliveira possui, de alguma forma, uma visão diacrônica do fenômeno, procurando justificar a dupla ocorrência de plural para os nomes terminados em -ão (-ões; -ães; -aõs), João de Barros, além de não explicitar a variação existente, faz uma crítica  àqueles que usam  -ão, em vez de -am, como em razão,  razam. Segundo ele, "nam me pareçeria mal desterármos de nós esta prolaçam e ortografia galega.", o que denota uma visão diferente de língua/linguagem.     TOPO

 

 

Verbos de padrão especial, ou irregulares,

no português do século XVI: um estudo comparativo

entre Fernão de Oliveira e João de Barros

Zenaide de Oliveira Novais Carneiro (UEFS)

Nesta comunicação, faço uma descrição dos verbos irregulares ou verbos de padrão especial (VPE), na terminologia de Mattoso Câmara (1972) e Mattos e Silva (1989), em duas gramáticas do século XVI, a Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), de Fernão de Oliveira, e a obra pedagógica de João de Barros, a saber: Gramática da Língua Portuguesa, o Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem e o Diálogo da Viciosa Vergonha (1540). Trata-se dos verbos que apresentam variação nos lexemas. Essa variação pode ser de quatro subgrupos distintos, tendo em vista a noção de ação não-acabada, lexemas das formas do não-perfeito (TNP) e de ação acabada, lexemas das formas do perfeito (TP), a saber:

Subgrupo 1: formado por verbos que apresentam variação no lexema das formas do não-perfeito e têm lexema específico para as formas do perfeito, com ou sem variantes, cujo subgrupo é formado por 14 verbos (dizer, trager, fazer, aver, teer, viir, põer, veer, estar, poder, jazer, querer, ir e ser) com processos fônicos comuns;

Subgrupo 2: formado por verbos que apresentam lexema invariável para as formas do não-perfeito e têm lexema específico para as formas do perfeito. Esse subgrupo é constituído pelos verbos saber, prazer, caber e dar;

Subgrupo 3:  formado por verbos que apresentam variações nos lexemas do não-perfeito, sendo o lexema das formas do perfeito a variante mais generalizada do lexema do não-perfeito;

Subgrupo 4: formado por verbos de PP especial, tradicionalmente chamados de verbos com particípio forte. Esse subgrupo, por sua vez, é formado por verbos em que o particípio passado (PP) não segue o padrão geral -LEX+VT+do, e estão subdividos em dois grupos.

O objetivo é verificar se as mudanças fônicas e/ou analógicas pelas quais passaram os VPE no século XVI (Carneiro, 1996, 2002) se refletem na escrita de Fernão de Oliveira de forma distinta da escrita de João de Barros, um gramático prescritivo.     TOPO

 

 

Mudança lingüística e análise gramatical:

o caso do pronome se nos gramáticos dos séculos XVI e XVII

Silvia Regina de Oliveira Cavalcante (UFF, Unicamp)

Uma pesquisa nas gramáticas tradicionais recentes nos revela, além de outros, dois usos para o pronome se: apassivador e índice de indeterminação do sujeito. O primeiro aparece nas construções com verbo transitivo que exibem concordância com seu argumento interno plural (1), e o segundo aparece nas outras construções (verbos transitivos indiretos, intransitivos, etc.) (2):

(1) Vendem-se casas.

(2) Precisa-se de empregados.

As construções com verbos transitivos diretos que não exibem concordância com o seu argumento interno plural (3) são consideradas erros de sintaxe, ou solecismo, pois a maioria das gramáticas tradicionais não considera o se como um índice de indeterminação do sujeito, diferentemente de algumas abordagens descritivas modernas:

(3) Vende-se casas.

A construção sem concordância, no entanto, é atestada no português a partir do século 16 (cf. Naro, 1973), período em que foi escrita a primeira gramática da língua portuguesa. Isso aponta para a ocorrência de uma mudança que está completando 500 anos, juntamente com o nascimento do primeiro gramático português – Fernão de Oliveira. A concepção de que a língua muda ao longo do tempo é recorrente nas gramáticas, inclusive está presente na de Fernão de Oliveira – entretanto nem sempre ela é reconhecida e validada. Desse modo, meu objetivo neste trabalho é apresentar algumas descrições de gramáticos dos séculos 16 e 17, buscando comparar suas análises do pronome se e, portanto, das construções ditas passivas analíticas ou impessoais, com o uso efetivo dessas construções em um corpus constituído a partir de textos de autores portugueses nascidos entre os séculos 16 e 17 (Corpus Anotado do Português Histórico – Corpus Tycho Brahe). Assim fica a pergunta a ser respondida: até que ponto a mudança lingüística é contemplada nas gramáticas?    

 

 


 

 

26/09 – 09h00

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES IV

 

 

Letra e alfabeto em Fernão de Oliveira

e outros gramáticos do século XVI

José Horta Nunes (UNESP)

Para se fazer a história de um conceito, consideramos, do ponto de vista da história das idéias lingüísticas, o espaço-tempo em que ele se produz e o modo como esse espaço-tempo se estabelece no discurso. Vamos mostrar como se constrói o conceito de “letra” em Fernão de Oliveira (1536), no espaço-tempo português, em comparação com outros gramáticos do século XVI, a saber: Nebrija (1517), Barros (1539) e Gândavo (1574). Além disso, discutiremos o modo como é apresentado o “alfabeto” em cada uma dessas gramáticas: que letras aparecem ou não em cada caso, que condições se observam para a formação do alfabeto. Nos discursos das gramáticas, com a teorização da letra, nota-se uma aproximação e um distanciamento em relação aos autores gregos e latinos, na tensão entre a reprodução e o deslocamento de sentidos. Examinamos isso, explicitando o funcionamento da “autoria” no discurso gramatical. Levamos em consideração nas análises realizadas aspectos históricos como a constituição de uma língua nacional e a influência da imprensa, fatos estes marcados na materialidade lingüística dos discursos.    TOPO

 

 

A Grammatica da Lingoagem Portuguesa de Fernão de Oliveira

no contexto da gramatização

Cesar Augusto de Oliveira Casella (Unicamp)

Este trabalho tenta contextualizar historicamente a obra de Fernão de Oliveira, Grammatica da Lingoagem Portuguesa, inserindo-a no longo processo concebido por Sylvain Auroux como "gramatização", cujas características mais aparentes são a complexidade de fatores originários e a imensa ramificação social, processo ao qual o autor francês batizou também de "macro-acontecimento" em seu livro A Revolução Tecnológica da Gramatização. É neste processo que a língua se torna gramaticalizada, isto é, passível de ser transmitida pelo instrumento lingüístico conhecido como Gramática, fato que permitiu o extraordinário desenvolvimento e o alto grau de domínio do mundo pelo Ocidente moderno. Por outro lado, ao pensarmos na tácita percepção vigente de uma superação da Gramática pela Lingüística, como se aquela fosse uma etapa evolutiva desta, na tácita percepção de uma separação entre estas duas áreas, com o entendimento que elas são atualmente dois pólos diferenciados de conhecimento sobre a linguagem e a língua, é possível também tentar identificar se este macro-acontecimento ainda está em vigor e se a observação da obra de Fernão de Oliveira não permite refletir sobre a situação contemporânea da Gramática dita tradicional. Assim, diante do conceito de gramatização e da percepção desta separação atual entre Gramática e a Lingüística, propomo-nos a procurar e mostrar indícios, na Grammatica da Lingoagem Portuguesa, tanto da inserção e da posição desta obra no longo processo de gramatização quanto da validade de pensarmos esta obra nos termos desta separação de áreas. Estes indícios é que nos permitirão chegar à conclusão de que Fernão de Oliveira, por causa de seu esforço singular de observador da língua, acaba em uma posição única no processo de gramatização e ao mesmo tempo torna inapropriado para si a separação de áreas atualmente vigente, pois parece ter um papel ambivalente de gramático e de lingüista. A importância de Fernão de Oliveira fica salientada com esta análise de sua obra, que nos ajuda a pensar a nossa atual separação e o que nela há de necessário ou constitutivo dos estudos da linguagem e o que, em contrapartida, é resultado de uma luta por espaço institucional, além de levar-nos a pensar se o processo de gramatização continua ou já se encerrou com o advento da Lingüística.     TOPO

 

 

Seis gramáticas no bosque da identificação

Charlene M. Miotti (Unicamp)

Na ocasião do quinto centenário de nascimento do primeiro gramático da língua portuguesa, nossa fala se avizinhará do assunto trazendo à consideração duas importantes obras gramaticais dos séculos XVI e XVII (a primeira do tupi, a segunda do guarani), ao lado de outras quatro do século XX (essas, do português). Herdeiras, em alguma instância, da Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536), essas obras ajudaram a compor um quadro coeso sobre o processo de gramatização (Auroux, 1992) da língua portuguesa.  Partindo da mesma estrutura de trabalho da qual fizemos uso durante nossa pesquisa de mestrado – a comparação entre alguns manuais gramaticais (da língua latina, no nosso caso) – nossa análise aqui versará sobre o corpus de fragmentos de seis gramáticas específicas que selecionamos por considerá-las significativas na exposição de algumas das referências mais manifestas pelos autores de gramáticas até praticamente o século XX: a língua latina (a Antigüidade clássica como um índice de autoridade), o português de Portugal (ou o próprio Portugal) e o Cristianismo (aí também envolvida a interpenetração do latim). Essas obras nos possibilitaram análises diacrônicas e sincrônicas em várias instâncias, inclusive na base autor-autor, como se poderá observar em Eduardo Pereira e João Ribeiro. São elas:

(1) ANCHIETA, J.. Arte de Grammatica da Lingoa mais usada na Costa do Brasil. (1595)

(2) MONTOYA. Arte, y Bocabulario de La Lengua Guarani. (1639/40)

(3) PEREIRA, E. C.. Grammatica Expositiva. (1907)

(4) PEREIRA, E. C.. Grammatica Historica. (1915)

(5) RIBEIRO, João. Grammatica Portugueza (Curso Superior). (1933)

(6) RIBEIRO, João. Grammatica da Infancia (Grammatica Portuguêsa). (1936)

Faremos um exame individual de partes desses materiais ao qual seguirão naturalmente reflexões comparativas que não se pretendem exaustivas nem definitivas, representam ao contrário nosso esforço na direção de um cotejo que faça sentido também no âmbito das comemorações acerca de Fernão de Oliveira.   TOPO

 

 

Nós, eles: o pertencimento da língua em Fernão de Oliveira

Carolina P. Fedatto (Unicamp)

Este trabalho se interessa pela construção das relações entre línguas e a constituição de uma metalinguagem na gramática de Fernão de Oliveira. Considerando que o contexto sócio-histórico do aparecimento da Gramática da Linguagem Portuguesa é notadamente marcado, no campo da constituição dos saberes lingüísticos, pela gramatização massiva das línguas do mundo (cf. Auroux, 1992), proponho uma análise dos enunciados sobre o outro na designação das línguas, das nações e dos povos citados e um olhar para o funcionamento dos pronomes de primeira pessoa (nós, nosso) – que desdobram um lugar de terceira pessoa (eles). A constituição dos Estados Nacionais exige que se produza uma coincidência entre uma nação, uma língua e uma cultura; podemos dizer até que o Estado só se apresenta da forma como hoje o conhecemos pela eficácia dessas sobreposições que definirão as relações com a diferença através da administração do lugar do outro. Configurada dessa maneira, é a idéia de pertencimento a uma nação que vai gerir a produção da língua enquanto um objeto específico de saber, pensando a produção do conhecimento sobre a linguagem, e de identificação de um povo, focalizando as conseqüências políticas dessa prática. Projeta-se aí um espaço para significação do Brasil, através da colonização, frente à língua portuguesa. As condições de possibilidade da língua no Brasil se mostram, de alguma forma, já inscritas no ato de Fernão de Oliveira. Partindo dessas considerações, pretendo discutir como se configura a noção de pertencimento da língua.

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