MACUNAÍMA E A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA BRASILEIRA
Fábio Della Paschoa Rodrigues
“A tentativa de implantação da
cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas,
largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade
brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. (...) Trazendo de
países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias,
e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil,
somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. (...) Podemos construir obras
excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar
à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto
de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de
evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.”
(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)
INTRODUÇÃO
O movimento
modernista da década de 20 ambicionava tornar o Brasil uma nação com forma
própria, conquistando nossa individualidade cultural e um lugar no “concerto
das nações”, como dizia Mário de Andrade. Nessa tarefa, o autor modernista,
baseando-se em certas teorias históricas e filosóficas, empenhou-se em produzir
um trabalho que afirmasse a entidade nacional e assim criou o seu Macunaíma.
Neste trabalho,
discutiremos questões nacionais levantadas por Macunaíma e as influências e analogias entre a obra de
Mário de Andrade e algumas das grandes teorias históricas, particularmente as
de Herder, Spengler e Keyserling. Além disso, transportaremos as imagens
macunaímicas para nossa realidade atual “globalizada”, fazendo um pequeno
paralelo entre Macunaíma e o Brasil dos anos 90 do século XX.
AS INTENÇÕES DE MACUNAÍMA
Como o próprio
Mário declarou, ele teve muitas intenções ao escrever Macunaíma, tratando de diversos problemas brasileiros: a falta de
definição de um caráter nacional, a cultura submissa e dividida do Brasil, o
descaso para com as nossas tradições, a importação de modelos socioculturais e
econômicos, a discriminação lingüística etc. Mas a principal preocupação de
Mário de Andrade foi buscar uma identidade cultural brasileira. O Brasil na
época (e também hoje) não tinha “competência” para desenvolver uma cultura
autônoma e toma emprestado modelos europeus, que não se adaptam ao nosso clima
quente. A nossa cultura, então, deveria ser distinta das outras e possuir, por
outro lado, uma totalidade racial; deveria provir das raízes que aqui haviam,
das culturas populares existentes nos recantos do país. O Brasil, como entidade
cultural, seria construído pela mistura de todas essas culturas (orais) de cada
região brasileira. É justamente o que o escritor faz em Macunaíma: compõe a sua rapsódia reunindo lendas, folclores,
crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões,
não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas
manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade
nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura.
Referindo-se a essa “desgeografização”, Mário de Andrade anota num de seus
prefácios inéditos:
“Um dos meus interesses foi
desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim
desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo que conseguia o
mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea = um
conceito étnico nacional e geográfico.”
Comentando esse
esforço de juntar os elementos constitutivos do ser nacional, Eduardo Jardim de
Moraes (In: Berriel, 1990) nota que:
“Na composição de Macunaíma e em seus escritos críticos da
época nota-se o cuidado rigoroso de efetuar o levantamento do material que
torna possível traçar o perfil do Brasil. Era intenção de Mário de Andrade, em
sua perspectiva analítica, ao justapor os variados elementos culturais
presentes na esfera nacional, chegar à definição de um elemento comum que
qualificasse todos como pertencentes ao mesmo patrimônio cultural.”
Para Mário de
Andrade, a modernização brasileira, isto é, a conquista de uma identidade
cultural só seria possível se tomássemos consciência de nossas tradições. Em
entrevista concedida em 1925, o escritor afirma que “ toda tentativa de modernização implica a passadização da coisa que a
gente quer modernizar”. Vai mais além: “nós
só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos
integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um
contingente original e nacional de cultura”. Macunaíma é, portanto, uma tentativa de modernizar o Brasil através
do passado, de nossas tradições; é também a tentativa de fundar a raça
brasileira, estreitamente ligada ao seu ambiente geográfico, ao seu clima.
Todas essas intenções
macunaímicas tomam por base conceitos de raça e cultura construídos pela
filosofia européia, particularmente a alemã. Ele como que tomou emprestado
certos conceitos, mas adaptando-os ao nosso clima quente. Passemos então, a
analisar os pontos de convergência entre sua obra e as teorias históricas.
MACUNAÍMA E AS TEORIAS HISTÓRICAS
Comecemos
analisando as relações entre a obra andradiana e o pensador alemão Johann
Gottfried Herder (1744-1803). Para Herder, a característica mais importante da
história é a pluralidade e a individualidade das nações, justamente o que
buscavam nossos modernistas.
Apesar de não
haver material comprovando que Mário de Andrade leu Herder – conforme aponta C.
E. Berriel (1987), as idéias deste pensador são claramente notadas na obra do
escritor (que podem ter vindo através de Spengler ou do Romantismo brasileiro,
ambos influenciados por Herder). O filósofo acreditava que “a literatura de uma
nação deve ser verdadeira para com as tradições e o caráter íntimo da mesma nação,
e a sua atitude para com a natureza” (Gardiner, 1995). Ora, Macunaíma é esta literatura: busca
resgatar as tradições folclóricas brasileiras e afirmar um caráter nacional
(que, para Mário, supostamente não há). O pensamento herdiano enfatiza os
conceitos de caráter nacional e de meio ambiente, em que há uma unidade entre
geografia, cultura e raça. Lendo atentamente Macunaíma, percebemos que Mário de Andrade utiliza todos esses
conceitos em seu livro: nosso herói
adquire características adequadas ao meio em que vive, ao seu espaço geográfico
(que depois abandonará como sabemos), ele é a tentativa de fundar a raça
brasileira a partir das “três raças tristes” que dão origem ao brasileiro e,
mais ainda, é a possibilidade da criação de uma cultura nacional autêntica.
O escritor
modernista partilhava da mesma idéia de que a paisagem está dentro do ser
humano, como experiência coletiva ou individual de estar em um determinado
lugar, a natureza captada pelos sentidos. Na concepção de Herder, o homem se
origina a partir e dentro de uma raça, que está intrinsecamente ligada à
paisagem, como ele ilustra em uma metáfora:
“Tal como a água de uma nascente
recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades atuantes e o
seu sabor, assim o antigo caráter dos povos proveio de traços raciais, do
clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das ações
peculiares a cada um desses povos.”
Neste sentido,
Mário traduz literariamente a filosofia de Herder. Ele acreditava que
deveríamos construir uma cultura, em sentido amplo, adaptada ao nosso clima, à
nossa paisagem. Em resposta a um questionário da Editora Macaulay, em 1933,
Mário declarou: “Tanto o meu físico como
as minhas disposições de espírito exigem as terras do Equador. Meu desejo é ir
viver longe da civilização, na beira de algum rio pequeno da Amazônia...”
Ele acreditava que a preguiça era uma necessidade para os povos de clima quente
como o Brasil, já que o “trabalho semanal e de tantas horas diárias” era coisa
de civilizações cristãs de clima frio.
Mário de
Andrade problematiza em Macunaíma as
idéias de Herder segundo as quais o
destino de um povo “depende
primordialmente do tempo e do lugar em que nasce, das partes que o compõem e
das circunstâncias exteriores que o rodearam”. Para a formação da entidade
nacional é necessário superar todos esses obstáculos que se impõem diante do
herói: primeiramente ele não tem caráter, não é ligado ao seu meio geográfico
(que, inclusive, renega ao final do livro), as partes (raças) que o compõem são
conflitantes com a opressão do componente europeu, o tempo em que o Brasil vive
passa por um período de transição, início da industrialização nacional.
Verificamos vários outros obstáculos que nosso herói encontra e que tem relação
com a teoria herdiana. Herder acreditava que os povos incultos adquirem
conhecimentos pela prática ou pelo intercâmbio com outros, mas Macunaíma (o Brasil, na verdade) só
importa conhecimento, não troca, ou quando o faz troca “borboletas” por
“idéias”, isto é troca o “exótico” pelo “civilizado”. Ainda para ele, os povos
permanecem ligados entre si, influenciando uns aos outros, de acordo com a
relação de maior ou menor poder, em que o país submisso é subjugado pelo
opressor; o Brasil, nessa relação é quase totalmente submetido à cultura cristã
européia e não tem forças para influenciar esse continente. Enfim, o Brasil só
se consolidaria como entidade cultural se crescesse das próprias raízes, como
preconizava o filósofo alemão. Macunaíma,
ao invés disso, abandona suas raízes e se rende ao clima frio europeu,
desprezando suas tradições e renegando sua paisagem tropical.
Para Herder a
história de um povo é orgânica (como também para Spengler, como veremos mais
adiante): “uma nação, tal qual o homem,
crescerá e morrerá, inevitavelmente”. Mário de Andrade descreve
literariamente a nossa história orgânica, desde o nascimento da possível
cultura brasileira até seu quase desenvolvimento e enfim sua morte, ou seja, a
vida de Macunaíma.
A influência de
Oswald Spengler (1880-1936), outro pensador alemão, na obra de Mário de Andrade
é patente e reconhecida. Mário leu e se inspirou na obra “A decadência do Ocidente” e em diversas passagens de Macunaíma
reconhecemos imagens spenglerianas.
Segundo P.
Gardiner (1995), Spengler dá preferência “ao
instinto, em oposição ao entendimento, à vida no campo em oposição à vda na
cidade, a fé e o respeito pela tradição em oposição ao cálculo racional e ao
interesse próprio, à intuição e à imaginação em oposição à análise e ao método
científico”. Ainda para Spengler, “uma
cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado
primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma
surgir em meio do informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no
ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente
restrita, à qual se apega, qual planta”. Isto é, com algumas modificações,
a descrição de Macunaíma.
Vejamos:
Macunaíma é essa alma adormecida que nasce do ilimitado (o “silêncio tão grande”)
no “fundo do mato virgem”, portanto, muito longe da cidade; ele usa sua mágica
(intuição) para agir e prever as coisas. Mas nosso herói ficará para sempre
“carinha enjoativa de piá”, pois enganara as tradições folclóricas, que ora
defende ora se afasta delas (defende o Pai do Mutum mas foge de Capei); age sempre por interesse próprio, não tem
caráter; e não se apega “qual planta” à sua paisagem.
Percebemos no
livro as diversas oposições levantadas por Spengler: destino x causalidade, cultura x civilização, história x natureza, crescimento e vida x decadência e morte. Aliás, a oposição
principal de Macunaíma não é a do
herói com o gigante Venceslau Pietro Pietra, mas sim a oposição entre a mata
tropical e a cidade temperada, ou seja, a oposição entre cultura (tradição) e
civilização, que é oposição básica de Spengler.
No percurso do
“herói de nossa gente”, Mário tenta construir a cultura brasileira, segundo os
conceitos de Spengler, para quem “as
massas de seres humanos fluem numa corrente sem obstáculos, da qual surge de
vez em quando a Kultur autoconsciente”;
porém, a falta de caráter do herói não possibilita o surgimento da cultura
brasileira. Além disso, o herói de nossa gente encontra obstáculos na sua vida,
quando está se desenvolvendo: ele se depara com o roubo da muiraquitã (cultura
brasileira) pelo gigante Piaimã – o Brasil ao tentar construir sua unidade
cultural encontra a Europa no meio do percurso.
Assim como para
Herder, Spengler acredita que a força da cultura depende das raízes, da adaptação
à terra, à afinidade com a natureza e a consolidação da raça. Para ele, “a História Mundial é a história da ascensão
e queda de nações e raças”. E a raça é uma questão de um “sentimento comum”
que une gerações sucessivas num todo. Spengler, como já dito, construiu uma
concepção orgânica de história e foi além de Herder, supostamente prevendo o
destino de todas as civilizações. Outro ponto de concordância entre os dois
filósofos era a afirmação de que cada cultura tem o seu caráter específico ou
“alma”. Na visão spengleriana “cada
cultura tem as suas possibilidades de expressão, que surgem, amadurecem, decaem
e não voltam a se repetir”. Já vimos que Mário utiliza essas idéias em seu
livro, contando a vida do herói brasileiro, na verdade a vida da cultura
brasileira.
Mário também
crê na concepção spengleriana de que a indústria (o estágio mais avançado da
civilização) é o grande inimigo da Natureza. Ela destrói as nações, as culturas
nacionais. A máquina altera a relação do homem com a Natureza, interpondo-se
entre eles. Macunaíma se vende às máquinas, quase se tornando uma, e assim
frustra-se a tentativa de se estabelecer uma cultura nacional. O herói, como
não tem caráter, é facilmente comprado pelas atrações da máquina, esquece a
natureza, renega as tradições. Na cidade não há espaço para o sagrado, pois “isso de deuses era gorda mentira antiga”
como diz uma “filha da mandioca” para o herói. A máquina não era deus e ninguém
podia brincar com ela , pois ela matava. Ao refletir sobre máquinas e homens,
Macunaíma chega à conclusão de que “os
homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens”. Nesse momento,
nosso herói começa a maquinar, ele absorve a civilização pois não tem caráter.
Na cidade não
há povo, mas uma massa. A cidade-máquina devora os homens e Macunaíma também é
devorado por São Paulo. Ele não consegue mais viver e, outro solo que não esse,
petrificado; a mata já lhe é estranha e
monótona, ele não compreende mais o silêncio que o originou. Assim,
Macunaíma, nas palavras de Spengler, “leva
a cidade constantemente comsigo (...) perdeu o campo em seu interior e nunca
mais o encontrará no mundo de fora”.
A gênese das
culturas, na teoria spengleriana, é representada pelo mundo rural, o urbano é a
corporificação da decadência das civilizações; a civilização “é um epílogo, a morte seguindo-se à vida, a
rigidez seguindo-se à expansão (...) o mundo-cidade petrificante seguindo-se à
mãe-terra.”. Macunaíma, rendendo-se à civilização, entra em decadência,
petrifica-se e vê São Paulo se petrificar. Mário constrói uma imagem magnífica:
para ele, São Paulo deveria se preocupar com o exercício da preguiça, mas como
não tem caráter, ela se transforma em um imenso bicho preguiça de pedra.
Mas a cultura
brasileira não morre de todo. Mário, de certa forma, acredita no Brasil e
deixa, no final do livro, a possibilidade de construirmos a nossa cultura:
Macunaíma, na verdade, não morre, sobe para o campo vasto do céu, vira
tradição, que poderá ser resgatada e transmitida (como aliás, é transmitida ao
próprio Mário no Epílogo).
Essa visão
otimista com relação à formação de uma nação brasileira, Mário deve a
Keyserling, único pensador que teve sua influência creditada explicitamente,
num dos prefácios inéditos.
Na concepção de
Keyserling, o homem é uma entidade real que se manifesta através de criações
culturais. A teoria dele, assim como a de Herder, afirma o particularismo das
culturas e ao mesmo tempo seu lugar universal. O conceito de cultura
keyserlinguiano está relacionado a um passado vivo e a cultura “é a forma da vida, como imediata
expressão do espírito (...) é obrigação
com relação a um passado vivo, (...) é exclusiva e, portanto, estritamente
limitada no exterior; é essencialmente unitária, pelo que cada coisa particular
nela pressupõe e alude à totalidade” (que, enfatizamos, é o conceito
utilizado pelos modernistas de 20). Mas, diferentemente de Spengler, para ele “todas as culturas tradicionais do planeta
estão em decadência”, não só a civilização ocidental. Mas se Keyserling
considera que todas as culturas tradicionais estão em decadência, porque
centradas “no irracional, no impulsivo” – que é intransferível e,
assim, não dando continuidade à cultura, por outro lado, a cultura pode ser
perpetuada através de tradições vivas.
Mário
compartilhava do otimismo de Keyserling, que acreditava que a tradição viva era
a via de transmissão da cultura, a despeito da decadência inevitável das
civilizações. Por isso Macunaíma, apesar de ter perdido a muiraquitã (a cultura
brasileira) vira constelação (tradição). Ou seja, agora ele se transformou em
instrumento de transmissão do que poderia vir a ser a entidade brasileira. O
projeto andradiano, portanto, pode ser resgatado pelas gerações futuras.
Para Keyserling
uma nova cultura se desenvolve “quando da
mescla se origina o equivalente a uma nova raça definida”. Esse postulado
permite Mário de Andrade conceber a gênese da Raça brasileira, criando seu
herói a partir da mescla das três raças tristes (índio, branco e negro). Nosso
herói, infelizmente como sabemos, deixa que sua porção branca oprima as outras
e se vende à civilização decadente, não definindo uma nova Raça. Cabe ressaltar
aqui que a porção branca de Macunaíma – vinda dos portugueses – já era mestiça
e não se constituía como Raça; citando Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do
Brasil: os portugueses apresentavam “ausência completa, ou praticamente completa
de qualquer orgulho de raça (...) Essa modalidade de seu caráter explica-se
muito pelo fato de serem os portugueses um povo de mestiços”.
Mário de Andrade
encontra outro ponto de apoio em Keyserling, com relação à aversão à industrialização nascente, ao
capitalismo verdadeiro, como nota C.Berriel (1987):
“Keyserling oferece uma
alternativa “não-burguesa” de leitura da realidade histórica, ao rejeitar a
economia e a materialidade como formas explicativas. Assim, a crise da
sociedade contemporânea pôde ser vista, tanto por Spengler e Keyserling, como
por Mário de Andrade, como uma crise da cultura pura e simplesmente”.
Todas essas
postulações keyserlinguianas deram base para que Mário criasse seu “poema
fundador” da raça brasileira ligada à paisagem tropical, e, por conseqüência,
desenvolver a cultura brasileira. Ao pessimismo de Spengler, Mário prefere a
possibilidade keyserlinguiana de manter a tradição brasileira viva, na
esperança de que ela venha a se despertar novamente; por isso mesmo é que
escuta do papagaio a vida do herói de nossa gente e nos transmite.
AS IMAGENS
MACUNAÍMICAS E O BRASIL ATUAL
À luz das
idéias e conceitos expressos em Macunaíma,
transportaremos algumas de suas imagens
para o Brasil da era globalizada. A intenção aqui não é aplicar uma teoria
histórica (ou sua releitura literária) à atualidade brasileira, nem fazer uma
crítica aprofundada sobre a cultura brasileira nos dias de hoje; para isso,
seriam necessárias pesquisa e análise mais aprofundadas. A intenção é mostrar pontos de contato entre obra de
Mário de Andrade e nosso atual contexto cultural e econômico, é também mostrar
que a tradição macunaímica se faz sentir em nossos dias, com as mesmas questões
que preocupou os modernistas na década de 20.
A Globalização
implica na anulação da identidade nacional dos povos. Ela supostamente
unificaria todas as nações o que, na verdade, levaria à perda da identidade
cultural de cada nação. Neste sentido, a nova caminha para um objetivo
contrário ao das teorias de Herder, Keyserling e da proposta modernista, em que
a cultura se afirma como nação pela sua particularidade. O mundo globalizado
não admite tradições e particularidades, num momento em que a palavra de ordem
é “comunicação”. Comunicação virtual, a informação em alta velocidade através
da máquina computador. Uma tribo africana sem e-mail ou home page
ficará obsoleta, entrará em decadência, muito mais rapidamente que as civilizações
preconizadas por Spengler. A civilização conquistou de tal forma uma técnica
apurada – as novas tecnologias, que aceleram desenfreadamente o desaparecimento
da cultura tradicional, como dizia Keyserling.
A cultura
brasileira, seduzida por essa Uiara, está cada vez mais enxertada de
estrangeirismos, que passaram a ser considerados como agregados culturais que
contribuiriam para o enriquecimento de nossa “cultura”. O povo (quer dizer, a
massa) não se dá conta muitas vezes de que essas “contribuições” na verdade
fazem parte de um processo de “lavagem cerebral” das nossas tradições, que a
influência cultural e econômica continua sendo unilateral. Não há fluxo de
troca entre Brasil e a nova civilização ocidental hegemônica, os Estados
Unidos, por exemplo; exportamos “futebol” e importamos “tecnologia”. Cada vez
mais nossa realidade é afetada pela bolsa de Nova Iorque, de Tóquio, de Hong
Kong etc... Cada vez mais a nossa cultura se rende a enlatados
norte-americanos, mexicanos, argentinos... pois a produção nacional (quer seja
cultural, social, econômica) não tem valor.
O atual herói
se vendeu muito mais facilmente à civilização que o Macunaíma. O novo herói de
nossa gente é o Sr. Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (FHC)
que, assim como Macunaíma, não tem caráter: lutou contra a ditadura militar mas
entrega agora o país ao capital estrangeiro; diz estar ao lado do povo, mas no
capítulo seguinte declara que os aposentados são vagabundos e aprova um plano de previdência que prejudica
os trabalhadores; diz defender os pobres para depois salvar bancos privados da
falência, despendendo cifras milionárias e cobra mais impostos dos cidadãos.
Ele esquece nossas “tradições” e vende nosso petróleo, nossa energia, nossas
telecomunicações para os civilizados europeus e norte-americanos. Os gigantes
Piaimãs ACM, Tio Sam, FMI querem devorar nosso herói que, para se salvar
(entenda-se: salvar a si próprio, não a nação) se transforma em Superman ou Tio Patinhas usando sua “mágica”. A Uiara Globalização seduziu
nosso herói por completo, sem a hesitação de Macunaíma.
Percebemos que
há várias semelhanças entre as aventuras macunaímas e as aventuras de FHC.
Talvez Mário de Andrade, Spengler e Keyserling tenham razão e a depender do
novo herói, nosso quadro confirmará as teorias aqui comentadas, reiterando o
que Sérgio Buarque de Holanda declarou em seu Raízes do Brasil: “somos uns
desterrados em nossa terra”.
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