Homenageadas

Nesta edição do CILH, temos a honra de homenagear as professoras Charlotte Galves e Mary Kato, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/UNICAMP), ambas bolsistas produtividade em pesquisa do CNPq – Nível 1A, integrantes do seleto grupo de fundadores e difusores da área da Linguística Histórica no Brasil. O percurso de pesquisa dessas duas mulheres, ilustres pesquisadoras da Linguística Histórica brasileira, demonstra entrecruzamentos que enriqueceram e enriquecem o espectro do conhecimento científico sobre a mudança nas línguas, com impacto importante nas reflexões sobre o português, especialmente o português europeu e o brasileiro. Seus trabalhos na área de sintaxe diacrônica de orientação formal são referências obrigatórias para os estudantes que querem se  aventurar na área da Linguística Histórica, no percurso da língua portuguesa no Brasil e em outros espaços, sua natureza, origens e estrutura. Galves e Kato contribuíram com a nucleação da Linguística nas universidades brasileiras, formando muitos dos pesquisadores e professores da área que hoje dão continuidade às pesquisas, à produção do conhecimento e à formação de professores e pesquisadores nas instituições de todo o Brasil. Além de manterem a interação com seus ex-orientandos, já professores em grandes universidades públicas do país, interagem, para além das fronteiras nacionais, com pesquisadores de instituições estrangeiras, em cooperações internacionais de qualidade, internacionalizando a área de Linguística e elevando a qualidade dos trabalhos aqui realizados.


Charlotte Marie
Chambelland Galves

Com pioneirismo e inovação, Charlotte conjuga a linguística formal com a exploração de grandes corpora anotados, investindo, desde a década de 1990, na criação de ferramentas e tecnologias para a construção do Corpus Tycho Brahe, o primeiro grande corpus anotado do português histórico, fruto de um projeto coordenado por ela: o projeto Padrões Rítmicos Fixação de Parâmetros e Mudança Linguística (FAPESP 1997, 2004), que almejou modelar a relação entre prosódia e sintaxe no processo de mudança que levou o português clássico ao português europeu moderno. Assim, com vistas a mapear as gramáticas do português no tempo histórico por meio  da anotação e descrição de um grande volume de dados de épocas passadas, em confronto com a descrição e análise dos dados das variantes modernas do português europeu e português brasileiro, nossa ilustre homenageada abraçou a interdisciplinaridade, abrindo espaço para um diálogo inovador e pioneiro no Brasil entre as ciências Linguística, Matemática e Computação.

Este pioneirismo tem deixado um importante legado. Como fruto da primeira fase do projeto, foram construídos uma versão do corpus eletrônico anotado Tycho Brahe e o primeiro anotador morfológico para o português histórico (tagger), fato que já possibilitou pesquisas com grande volume de dados, gerando conhecimento sobre uma fase do português que, na época, era muito pouco conhecida, o português clássico. Este movimento levou a outros projetos e mais incursões no tempo e espaço da língua, gerando o projeto: O Português no tempo e no espaço: contato linguístico, gramáticas em competição e mudança paramétrica (FAPESP 2012), que acrescenta à investigação o componente e continente africano. Nesse percurso, o Corpus Tycho Brahe tem sido uma constelação em constante expansão, no sentido de mais textos acrescentados, mais anotação e mais representação de variedades linguísticas, fato que tem motivado novos projetos e produção de novas tecnologias.

A importância e pioneirismo de Charlotte Galves se manifestam também no Prêmio Johannes Kepler, recebido por ela e seus co-autores em 2020.


Mary Aizawa
Kato

Mary Kato escavou a história do português brasileiro contribuindo decisivamente para o Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB) e estendendo essa pesquisa para a história das línguas românicas nas Américas, sendo mentora intelectual de um importante projeto da área no nosso continente: o projeto Romania Nova (FAPESP 2006, 2010) que abriu uma profícua colaboração com pesquisadores de vários países das Américas. Para além dos trabalhos de linguística histórica de orientação formal, Mary é uma referência importante na área de aquisição da linguagem tanto da língua falada quanto escrita. Seu livro No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, publicado em 1986 e o capítulo A gramática do letrado: questões para a teoria gramatical, publicado em 2005, que se tornaram referências fundamentais para qualquer estudo nessa área, são exemplos da importante influência de sua pesquisa nesse âmbito.

Além disso, sua pesquisa de base gerativa para o conhecimento da natureza da gramática na mente/cérebro do falante se aliou a seus conhecimentos sobre aspectos funcionais da linguagem, considerando assim o papel da estrutura informacional e da estilística na variação e mudança ocorridas no português brasileiro e mais além. É fundadora da revista DELTA e responsável por uma obra que marcou os estudos diacrônicos no Brasil, organizada conjuntamente com Ian Roberts, Português Brasileiro: uma viagem diacrônica, publicado em 1993 pela editora da Unicamp.

De lá para cá, Mary Kato seguiu com muitos estudos e colaborações, desvendando pontos da sintaxe do português brasileiro, sobretudo à luz da comparação com o português europeu.


Tributo a Fernando Tarallo – in memoriam

Também professor no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/UNICAMP), Fernando Tarallo foi um dos introdutores da sociolinguística quantitativa no país, tendo como um dos seus objetivos a compreensão da mudança linguística em conjunto com sua variação. Fez seu doutorado na Universidade da Pensilvânia, trabalhou com a sociolinguística, investigando a variação sincrônica e diacrônica do português. Foi autor, entre outros, do livro Tempos Linguísticos: Itinerário Histórico da Língua Portuguesa, publicado em 1990 pela editora Ática. Deixou grande contribuição para o pensamento científico sobre a natureza do português brasileiro e sobre sua formação, de maneira pioneira, vindo a falecer prematuramente em 1992.


Assim como as estrelas refletem um momento passado do universo no momento presente, o termo constelações diacrônicas, metáfora tema desse congresso, dialoga com a metáfora da viagem no tempo, presente em algumas das obras dos ilustres professores do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, Brasil.

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