Workshops

Lista dos Workshops do V CILH:

  1. Crítica Textual e Edição de Textos: diálogos com a Linguística de Corpus
  2. Crítica Textual, Paleografia e Humanidades Digitais: perspectivas de trabalho
  3. Comparative Syntax in the 21st century
  4. Universals and Variation in Semantics and Pragmatics
  5. Morfologia e suas interfaces
  6. Fonologia Histórica e Fonologia Diacrônica
  7. Modelos para o estudo da mudança sintática: em que consistem, como são aplicados e quais as suas vantagens
  8. Contato linguístico e aquisição de L2
  9. Tradição discursiva: um olhar interfacetado sobre a historicidade da língua e do texto
  10. Etimologia: entre a Filologia, a Linguística Histórica e a Lexicografia
  11. A onomástica e as contribuições para a linguística em perspectiva histórica
  12. Sociolinguística e História Social das línguas
  13. Desafios e reverberações dos estudos dialetológicos no Brasil no século XXI
  14. Historiografias da mudança linguística no Brasil

Workshop 1:

Crítica Textual e Edição de Textos: diálogos com a Linguística de Corpus

Alícia Duhá Lose (UFBA)
Afrânio Gonçalves Barbosa (USP)

Os corpora histórico-diacrônicos disponibilizados, em maior escala, na primeira década deste novo milênio, buscam proporcionar às pesquisas linguístico-históricas amplo repositório documental controlado nos eixos do tempo, espaço e no dos gêneros textuais, conforme os limites impostos pela quantidade e qualidade das fontes que sobreviveram ao descarte cotidiano, ou à destruição de acervos privados e institucionais ao longo da História. Se já é difícil levantar e editar os mesmos gêneros textuais em cada lugar e época previstos nos corpora, mais difícil ainda seria manter a representatividade de normas cultas e de normas populares sem a devida qualidade do trabalho histórico-filológico para identificar paradigmas de escrituração, autenticidade de textos, informações arquivísticas, círculos de escritura-leitura urbanos e além-urbanos, tradições externas, padrões paleográficos, codificações de normas, descrições de valores sociais de normas cultas, estudos de estruturas linguísticas exemplares em gêneros textuais considerados modelares. etc. Avançar nessa direção do controle de fatores externos na Linguística do Corpus implica, necessariamente, contar com o crivo da Filologia. Nesse sentido, este workshop tem como objetivo receber propostas de trabalhos no âmbito da Crítica Textual e da Edição de Textos, em toda dimensão, complexidade, variedade de metodologias, bases teóricas, nas muitas possibilidades de diálogos interdisciplinares, desde as vertentes mais conservadoras e tradicionais, até sua inserção no universo das Humanidades Digitais, de modo a estabelecer um painel de interesses e contatos entre os trabalhos recebidos.

Workshop 2:

Crítica Textual, Paleografia e Humanidades Digitais: perspectivas de trabalho

Vanessa Martins do Monte (USP)
Maria Clara Paixão de Sousa (USP)

Este workshop tem por objetivo fomentar um debate em torno das chamadas ‘Humanidades Digitais’, com especial atenção a sua relação com a Filologia e as disciplinas que lhe fornecem instrumental teórico (TOLEDO NETO, 2018; CASTRO, 1997). Dentre as disciplinas filológicas que serão especialmente investigadas neste workshop estão a Crítica Textual e a Paleografia; no entanto são bem- vindos trabalhos que dialoguem com as demais disciplinas.

Fiormonte, Numerico e Tomasi (2015, p. 15) afirmam que “o movimento das Humanidades Digitais faz parte de um fenômeno mais vasto, um cataclismo que está mudando não apenas as ciências e sua transmissão de conhecimento, mas também […] os mundos das finanças, da mídia, da política, do direito, do comércio e dos recursos humanos.”. Torna-se central, assim, a discussão sobre os desafios teóricos, metodológicos e institucionais trazidos pelas tecnologias computacionais para as disciplinas filológicas. É importante, por exemplo, refletirmos sobre os impactos do processamento automático de textos no âmbito da Filologia e, mais particularmente, da Crítica Textual (PAIXÃO DE SOUSA, 2013; BANZA, 2014; FRASER, 1998). As práticas do trabalho filológico têm sido interpeladas pelo uso da informática de um modo definitivo, obrigando-nos a uma tomada de posição crítica que precisa partir de um aprofundamento do conhecimento sobre as formas e consequências possíveis dessa interpelação. A relação entre a Crítica Textual e as Humanidades Digitais se mostra, portanto, inequívoca na medida em que as tarefas de decifrar, editar e, eventualmente, cotejar textos foram reconfiguradas em seus métodos pelo avanço das tecnologias computacionais (MONTE e PAIXÃO DE SOUSA, 2017; CRANE, 2010; CHAUDIRON, IHADJADENE e MAREDJ, 2008).

A Paleografia, inclusive, já vê seus métodos e suas práticas irreversivelmente alterados pelo desenvolvimento de ferramentas computacionais que permitem uma análise sofisticada e complementar àquela realizada pelo olho humano. Cunhou-se o termo ‘Digital Palaeography’ para tratar da produtiva colaboração entre os cientistas computacionais e os paleógrafos. A área tem cerca de 18 anos e seus métodos incluem o processamento e a anotação de imagens e a criação de modelos conceituais, que atuam no aprimoramento das representações icônicas de artefatos textuais (CIULA, 2017, p. 100). Esse aprimoramento traz à tona interpretações sensoriais e estruturais da escritura, ainda segundo Ciula (2017).

A inscrição de trabalhos que tratem sobre projetos, em fase inicial ou avançada, que aliem as práticas tradicionais de pesquisa a tecnologias digitais é incentivada. Também são bem-vindas reflexões teórico-metodológicas sobre o campo das Humanidades Digitais e sua interface com as disciplinas filológicas. Um dos objetivos do workshop é propiciar uma reflexão sobre os desafios particulares colocados pelas tecnologias computacionais para o trabalho filológico no âmbito da lusofonia – indo além dos limites tradicionais da anglofonia, onde se cunhou originalmente o termo ‘Digital Humanities’ e de onde emanaram seus moldes institucionais e políticos.

Workshop 3:

Comparative Syntax in the 21st century

Sonia Cyrino (University of Campinas)

This workshop aims at creating a forum to discuss current comparative studies in a formal perspective, focusing on the nature of morphosyntactic variation in natural languages.

Since the eighties, the theory of Principles and Parameters (Chomsky 1981, Chomsky & Lasnik 1993) has sought to articulate invariant constraints of Universal Grammar and the acquisition of particular languages. In this perspective, comparative syntax has been considered to be a window on the language faculty since it may provide new evidence about its general character. When investigating possible cross-linguistic generalizations and why they can be maintained, the linguist aims to arrive at more concrete hypotheses about the language faculty. Therefore, comparison across languages is an essential part of formal linguistics, and the study of closely or differently related varieties has been very useful to identify the core principles and parameters of Universal Grammar.

Recently, comparative work in this perspective has introduced the concepts of macro- and microparameters (Kayne 2005, Baker 2008, among others). Macroparameters differ from microparameters in that the expression of the former is more salient when comparing languages, leading to a ‘typological’ classification. Microparameters, on the other hand, refer to small- scale differences among grammars, their expression not being always pervasive in the primary linguistic data. As such, Romance languages have been the main responsible for the development of these studies. Additionally, recent theoretical discussions about these issues led by scholars as Roberts (2019), among others, have been centered on the idea that, in order to identify parameters of variation, one must also take into account what has been referred to as “the third factor”, besides holding constant many possible variable properties among the languages being investigated.

Against this background, this workshop is devised as a place for the discussion of current formal work and theorizing on these topics. We will welcome recent papers on comparative studies, not only on Romance but on any language and/or group of languages typologically related or not. As an additional goal, this workshop aims at addressing the discussion on the theoretical relevance of the very concepts of macro-, microparameters and parameter hierarchies. Therefore, case studies as well as discussions on the nature of parameters in the analysis of linguistic variation are topics that can be included in this workshop.

Additionally, innovative ways of analyzing morphosyntactic variation amongst languages by the employment of tools provided by corpora construction, computational linguistics and results from language acquisition studies are also contemplated as prospective papers.

As a result of this meeting, we expect to provide further contribution to the field of comparative studies in a formal perspective, a field that has engaged several linguists and has brought up an enlightening investigation on the linguistic properties of many languages and language families. We hope the meeting will foster a lively debate and bring new insights to the issues aforementioned, given that there are many questions still waiting for an answer.

Workshop 4:

Universals and Variation in Semantics and Pragmatics

Ana Paula Quadros Gomes (UFRJ)
Luciana Sanchez Mendes (UFF)

This workshop aims to gather studies focusing on semantic and pragmatic variation in natural languages.

Since Greenberg’s (1963) seminal work on typology of syntactic constructions, a new agenda on the Linguistics of the 20th Century has emerged. That rationalistmapproach aims to identify universal properties across languages. A natural unfolding of this view was to look at how natural languages vary on mapping semantic notions.

Lexical semantic change studies in historical linguistics traditionally focus on how word meaning varies and changes over the course of time.

Studies on change and variation could go beyond the word level, including the “semantic glue” as a target of scrutiny, by the comparison of functional/grammatical morphemes meaning and the principles of semantic composition in different languages. New semantic typologies have arisen. Barwise and Cooper’s (1981) DP Universal, for example, lead to a discussion of the existence of two distinct mechanisms in natural languages: A-quantification and D-quantification (Bach et al. 1995). This topic was explored on Brazilian Portuguese (Schmitt & Munn 1999; Müller 2002, a.o.); indigenous languages (e.g. Vieira, 1995 on Asurini do Trocará; Müller et al 2006 on Karitiana) and Libras – Brazilian Sign Language – (Sá et al., 2012; Almeida-Silva, 2013). There is a vast literature on the cross-linguistic variation and possible universals in nominal phrases, (Chierchia 2010; Doetjes 2012, a.o.). The topic was discussed in Brazilian Portuguese (Paraguassu and Müller 2007: de Oliveira and Rothstein 2011) and indigenous languages (Müller et al 2006 on Karitiana; Lima, 2014 on Yudja; Sanchez-Mendes et al., 2020 on Terena, a.o.).

Von Fintel and Matthewson (2008) discuss the variation on the verbal domain, finding it difficult to postulate universals beyond the internal building blocks of event structures (such as Dowty’s 1979 DO predicate). In Brazilian Portuguese, Basso (2007) discussed specificities of BP accomplishments and Ilari and Basso (2004) showed distinguishing properties of stative predicates. Adaptations on the canonical tests of Aktionsarten to analyze the verbal were discussed for Karitiana (Sanchez-Mendes 2014) and Libras (Simonassi 2019).

Pragmatics is also subject to intra and cross-linguistic variation. Intra-lingual variation phenomena may be divided in micro-social (situational) and macro-social (intercultural) variation.

Labovian Sociolinguistic claims that the variation witnessed at all levels of language reveals “structured heterogeneity.” Synchronic variation mirrors diachronic change. Duarte (2020) focus on a semantic variant (such as animacy and specificity features) as stimulating Brazilian Portuguese to undergo a parametric change from a prodrop to a non-prodrop language. Although in Labovian frameworks semantic features seriously influence syntactics, there are very few sociolinguistic studies on semantic variation itself. Robson (2012) alerts: “for the past 40 years of sociolinguistic research has focused on exploring the meaning of variation (cf. Eckert, 2012), while leaving the variation of meaning aside.” In this symposium, we wish semantics to gain the protagonism it has been denied.

We invite submissions on any of the above topics. We specially encourage submissions on under-represented languages such as indigenous and sign languages.

Workshop 5:

Morfologia e suas interfaces

Ieda Maria Alves (USP)
Bruno Maroneze (UFGD)

O workshop tem a finalidade de promover uma discussão a respeito de diferentes aspectos que envolvem os estudos sobre Morfologia, que possam atestar o desenvolvimento dessa disciplina. Pretende, assim, enfocar trabalhos que abordem a disciplina segundo diferentes teorias e diferentes perspectivas – histórica e/ou sincrônica; derivacional e/ou flexional – como também em suas relações com outras disciplinas linguísticas, reunindo morfólogos de diferentes tendências e de diferentes escolas, que possam contribuir com novos estudos sobre a palavra.

De difícil e variada conceituação, consideramos, de acordo com Basílio (2004, p.15), que uma palavra corresponde a uma unidade lexical, um lexema, e suas diferentes formas flexionadas correspondem a vocábulos, as variações de forma dessa palavra. Sabemos que essas duas partes, ou funções da palavra, têm sido tradicionalmente tratadas de forma isolada, conforme já observado no gramático latino Varrão (116 a 26 aC) – que apresenta a distinção entre derivatio voluntaria e derivatio naturalis (MATTOSO CÂMARA, 1975, p. 71-72) -, cabendo o estudo da construção da palavra à Morfologia Derivacional, ou Morfologia Lexical (SANDMANN, 1991), e o das flexões dos vocábulos à Morfologia Flexional. Apesar dessa separação histórica entre as duas morfologias, a abordagem da derivação e da flexão também está sendo reestudada por meio de uma relação de continuidade e de escalaridade, como têm proposto Bybee (1985) e Gonçalves (2011), por exemplo, reestudo que interessa sobremaneira aos objetivos do workshop. Assim, esperamos abarcar neste workshop tanto os estudos de Morfologia Lexical (formação de palavras, composição e derivação, neologia etc.) como os estudos de Morfologia Flexional (flexão nominal e verbal, categorias flexionais em português e outras línguas, flexão e variação linguística etc), além das relações entre ambos.

O workshop pretende, ainda, fomentar discussões relativas às relações ou interfaces que a Morfologia estabelece com outras disciplinas como a Fonologia, a Sintaxe, a Semântica, o Texto, o Discurso. Nessa perspectiva interdisciplinar, lembramos que a denominação Morfossintaxe, utilizada por alguns morfólogos e/ou sintaticistas, expressa que a gramática de uma língua, com base apenas no significado, abrange unicamente a Morfologia e a Sintaxe (cf. CARONE, 1986, p. 10). Esse termo é comentado e justificado por Lopes (2000, p. 150), que o considera adequado para salientar os pontos comuns entre essas disciplinas. De maneira oposta, Scalise (1994, p. 26), que acentua relações entre a Morfologia e a Fonologia e a Semântica, não descarta pontos de interação entre a Sintaxe e a Morfologia, porém considera-as como dois componentes bem distintos da Gramática. Trabalhos recentes têm reconhecido que a Semântica não estabelece relações apenas com a Morfologia Derivacional, como também propõem um tratamento sintático-semântico das formas flexionadas (RODRIGUES; CAMPOS, 2015); LIMA-HERNANDES; DIAS, 2015). Alguns trabalhos enfatizam também como os estudos sobre Texto e Discurso podem contribuir para o entendimento de fenômenos flexionais, a exemplo de Travaglia (1991, 2015).

Faz parte também dos objetivos do workshop incentivar a apresentação de trabalhos que abordem a Morfologia com base em diferentes teorias. Nessa perspectiva, citamos a contribuição de teorias recentes como a Linguística Cognitiva (LAKOFF; JOHNSON, 1980) e suas vertentes como a Morfologia Construcional (BOOIJ, 2010, 2018; GONÇALVES, 2016), os estudos de metáfora e metonímia (PANTHER; RADDEN, 1999; BASILIO, 2007; UNGERER, 2007; MARONEZE, 2016) e, no âmbito do Gerativismo, a vertente da Morfologia Distribuída (HALLE; MARANTZ, 1993; SCHER; BASSANI; MINUSSI, 2013).

Desse modo, o workshop mostra-se particularmente receptivo a estudos que busquem romper barreiras e promovam abordagens integrativas no âmbito da Morfologia, sejam relativas à dicotomia Derivação/Flexão, às relações que essa disciplina estabelece com as demais disciplinas linguísticas, como também à contribuição que diferentes teorias linguísticas possam trazer à compreensão dos fatos morfológicos.

Workshop 6:

Fonologia Histórica e Fonologia Diacrônica

Valéria Neto de Oliveira Monaretto (UFRGS)
Juliene Lopes Pedrosa (UFPB)

Ouvir o inaudível é fundamental para se determinar a relação de um dado sistema escrito e ao que este (aparentemente) codifica (LASS, 2000, p. 45). Esse é o grande desafio para se estudar a substância fônica e o nível de estrutura que podem estar representados em registros escritos no passado de uma língua. A interpretação fonética e fonológica, em formas escritas em tempos pretéritos, apresenta muitas dificuldades, tendo em vista que exige estratégias específicas, como: seleção do que seja um dado representativo e significativo de língua; conhecimento de tradições escritas de época e suas relações com o contexto histórico-social; associação de formas gráficas com estruturas do sistema da língua e substâncias fônicas, dentre outras.

De fato o que se obtêm, a partir de registros escritos, como testemunhos de um passado linguístico (SCHNEIDER, 2002) e como um canal legítimo para se examinar processos variáveis linguísticos (ROMAINE, 1982), são pistas ou indícios de realizações fônicas de possíveis indicadores para mudanças linguísticas que depois vieram a ocorrer, como bem diz Mattos e Silva (2001). Por isso, a documentação remanescente de um período passado é importante subsídio para o conhecimento da língua em uso de então e para o fornecimento de dados significativos para o processo histórico de mudança da língua (MATOS e SILVA, 2002, p. 14). No entanto, é preciso lembrar de que os dados de escrita são complexos e não podem ser tomados como evidências de realizações específicas da fala. A relação fonema/grafema está na base da escrita alfabética e pode não revelar pronúncias específicas de uma variedade de língua em determinado momento histórico (ABAURRE, 1999).

Nos primórdios da investigação linguística, modelos teóricos linguísticos surgiram com o objetivo de descrever e explicar as mudanças das línguas. Regularidades e leis fonéticas vêm à tona com os neogramáticos através de pressupostos de análise para apontar as causas fonéticas das transformações sonoras, que seguem com discussões variadas ao longo do tempo, tendo a diacronia no centro dos debates. Questões históricas são cruciais para renovar a controvérsia entre as propostas de fonologia formalista e de fonologia funcionalista, que procuram, por diferentes caminhos, responder se a estrutura fonológica é modulada por fatores externos ou por restrições internas à língua (BERMÚDEZ-OTHERO, 2006).

Outras discussões em fonologia também têm fundo histórico. Questões sobre a implementação da mudança fonológica (se gradual ou abrupta); a inovação sonora por fusão e/ou por divisão de sons; o papel do léxico e da frequência de uso na variação e mudança fonológica; são temas, dentre tantos outros, com potencial para o surgimento de novas propostas de análise. Podemos destacar alguns, diante tantos, que têm atuado nesses temas, como Labov (1981, 1994); Kiparsky (1988. 1995); Bybee (1998, 2001).

Com base nesses pressupostos, este workshop tem por objetivo reunir estudos que reflitam sobre aspectos fonéticos e fonológicos, tendo por base a história de línguas ou estudos diacrônicos sobre processos fonológicos. Intenciona-se discutir sobre: interpretação e representação de estruturas tanto do ponto de vista sincrônico e/ou diacrônico; metodologias de análise e interpretação de dados em textos escritos no passado; levantamento de dados fonológicos em registros escritos, modelos teóricos de análise, dentre outros aspectos relacionados à fonologia histórica e à fonologia diacrônica.

Esperamos contribuições de pesquisas que estejam relacionadas aos seguintes tópicos:

  1. Levantamentos e descrições de variações gráficas em textos de sincronias pretéritas como indícios de realizações fônicas e como características de padrões regulares de variação;
  2. Estudos que relacionem historiografia de língua com aspectos da fonética e da fonologia;
  3. Estudos de desvios à convenção ortográfica como vestígios de uma
    conceitualização linguística em um estado de língua no passado;
  4. Estudos de sistemas alfabéticos de línguas em períodos passados e sua relação com fenômenos de fonética e fonologia;
  5. A importância de estudos de fenômenos fonológicos para o processo histórico da mudança da língua;
  6. Estudos de aquisição de escrita infantil como indícios de mudança fonológica na estrutura da língua;
  7. Modelos teóricos para a explicação de fenômenos fonológicos diacrônicos;
  8. História e desenvolvimento de fenômenos fonológicos diacrônicos.
  9. Natureza e origens de mudanças sonoras.
  10. Registros em sincronias passadas de inabilidade de escrita (mãos inábeis) como fonte de indícios fonológicos.

Workshop 7:

Modelos para o estudo da mudança sintática: em que consistem, como são aplicados e quais as suas vantagens

Maria Eugenia Duarte (UFRJ)
Sílvia Cavalcante (UFRJ)

O objetivo deste workshop é reunir pesquisadores que trabalham com a mudança sintática sob diferentes abordagens ou modelos teóricos, mostrando sua aplicação, suas interfaces e as vantagens que oferecem para melhor descrever o fenômeno em questão.

Dois modelos têm tido papel de destaque nos estudos sobre mudança sintática, refletindo sua preponderância na linguística em geral:
(i) as correntes funcionalistas como o funcionalismo tipológico (GIVÓN, 1995), a gramática das construções (GOLDBERG, 1995), e os modelos de “complexidade” referidos por Castilho (2010), entre outros, que incluem de uma forma ou de outra análises que incorporam reflexões sobre a gramaticalização (TRAUGOTT, 2011);
(ii) as correntes formalistas, especialmente a partir dos anos 1990, com o interesse da Teoria Gerativa pelo estudo da mudança, que estaria relacionada à aquisição (LIGHTFOOT, 1991), mas que seria também sensível ao espraiamento da mudança na sociedade, como prega o modelo de Competição de Gramáticas (KROCH, 2001).

Porém a Teoria da Variação e Mudança (WEINREICH; LABOV; HERZOG 1968 [2006]) parece ter um papel preponderante na reflexão sobre a mudança, que tem sido paulatinamente ressignificado.

No Brasil, o ressurgimento da linguística histórica passou pela problematização sobre a identidade do português brasileiro, também ocorrida em trabalhos seminais de orientações teóricas distintas (PONTES, 1987; GALVES, 1987, inter alia). O interesse pelo estudo da mudança sintática no português do Brasil teve maior desenvolvimento com a Teoria da Variação e Mudança, cuja aplicação data dos anos 1970, quando Anthony Naro inicia sua atuação no Rio de Janeiro. Apesar de inicialmente associado ao funcionalismo, desde os anos 1980, a sociolinguística quantitativa também começa a ser associada à Teoria de Princípios e Parâmetros (TARALLO, 1987; TARALLO; KATO, 1989 [2006]), um desenvolvimento denominado de sociolinguística paramétrica. Essa tradição de pesquisa um tanto heterodoxa permitiu agregar a perspectiva variacionista acerca da
gradualidade da mudança e a gerativista, com enfoque no seu caráter abrupto. Contudo, mais recentemente o desenvolvimento de pesquisas em áreas de interface tem permitido o surgimento de novas vertentes, como a sociolinguística histórica (CONDE SILVESTRE, 2007), já com alguns representantes no país.

A proposta deste workshop é trazer à discussão diferentes abordagens, já que a complexidade da linguagem “põe em xeque uma afirmação constantemente repetida entre nós, acerca da proibição de posições ecléticas” (CASTILHO, 2010, p. 63). As que utilizarem dados empíricos podem trazê-los da língua falada ou da escrita. Serão bem-vindos estudos sobre qualquer língua natural, utilizando dados da língua falada ou escrita, assim como sobre aspectos sincrônicos e/ou diacrônicos (i.e. sobre a mudança em tempo aparente e/ou real).


Algumas questões que podem orientar os trabalhos são as seguintes:
1) Como a natureza de informações de interface com a fonética e/ou a
morfologia e a semântica ajudam a explicar mudanças sintáticas?
2) Que conclusões é possível retirar da implementação mais ou menos lenta de diferentes tipos de mudanças?
3) Que benefícios novas abordagens quantitativas ou qualitativas trazem para a análise de antigas questões?

Workshop 8:

Contato linguístico e aquisição de L2

Gabriel Antunes de Araújo (USP)

Os estudos do contato linguístico e da aquisição de segunda língua (L2) têm se influenciado mutuamente. A natureza mesma do contato, seja como elemento fulcral na gênese de novas línguas (pidgins, crioulas e novas variedades urbanas nas metrópoles multilíngues), seja como elemento de descoberta de novas possibilidades linguísticas que promovem a variação e a especiação das línguas transplantadas, lança luz sobre mecanismos inatos e adquiridos da aprendizagem de L2. Ao mesmo tempo, os estudos empíricos de aquisição de L2 permitem observar a sistematicidade das línguas, as soluções para além do input da primeira língua, bem como o compartilhamento ou não de recursos linguísticos previamente disponíveis.

Embora o papel do contato e da influência de L1 no aprendizado de L2 sejam pontos consensuais, ainda são bem-vindos estudos empíricos que correlacionam aspectos linguísticos de uma língua sendo incorporados em outra.

Neste workshop, a divergência e a convergência de estruturas e processos linguísticos mediadas pelo contato e pelos processos de aquisição de L2 servem de ponto de partida para o estudo de descrições e análises do contato linguístico e aquisição de L2. Dessa forma, trabalhos que descrevem a analisam línguas indígenas, línguas africanas, línguas de migrantes e de herança, novas línguas urbanas e a língua portuguesa em suas diversas situações de contato e múltiplos cenários de aquisição são o foco desse workshop.

São nomeados especificamente os seguintes temas para discussão:

  1. sintaxe, morfologia, fonologia e prosódia das línguas em contato;
  2. a língua portuguesa em contato;
  3. documentação histórica do contato linguístico;
  4. filologia e edição de documentos históricos sobre ‘novas’ línguas ou de
    variedades emergentes nos contextos coloniais;
  5. estudos longitudinais ou experimentais sobre aquisição de L2 e sua relação com o contato;
  6. comunidades multilíngues;
  7. evidências da influência de L1 em L2, motivada pelo contato ou pela
    aprendizagem;
  8. aspectos linguísticos do contato de L1 e línguas de herança;
  9. grandes corpora de línguas em contato;
  10. a emergência de línguas urbanas;
  11. a obsolescência de línguas motivada pelo contato.

Workshop 9:

Tradição discursiva: um olhar interfacetado sobre a historicidade da língua e do texto

Cléber Ataíde (UFRPE)
Valéria Gomes (UFRPE)

O objetivo deste simpósio é fomentar discussões teóricas, metodológicas e analíticas, que resultem de estudos que se voltam para o enriquecimento de pesquisas desenvolvidas com base no modelo das Tradições Discursivas, que contribuam para a ampliação do conhecimento acerca da historicidade dos textos e da língua. Para tanto, tomamos por base três princípios da teoria de Eugênio Coseriu (1985): a) o princípio da historicidade, no qual os seres humanos são seres históricos por definição e a língua é a base da existência humana; b) o princípio do falar postula que a linguística deve considerar sempre em primeiro lugar da atividade criativa dos falantes; c) o princípio da tradicionalidade discursiva, que se trata da relevância da tradicionalidade nas questões linguísticas (KABATEK, 2015, p. 26). Quanto ao terceiro princípio, consideramos que a historicidade do texto pode contribuir para os estudos que envolvem a sócio-hitória da língua, por meio da integração de algumas dimensões de análise: tradicionalidade dos gêneros; tradicionalidade estrutural; tradicionalidade tipológica; tradicionalidade estilística; tradicionalidade linguística. O simpósio não se restringirá a uma única vertente teórica, de modo que serão acolhidas propostas que se situem ou façam uso de princípios teórico-metodológicos de áreas afins ou que explorem os textos nas perspectivas linguística ou filológica. As reflexões gestadas neste simpósio visam, assim, contribuir para uma linguística integrada que busca articular as convergências das dimensões possíveis da linguagem humana, das línguas e dos textos.

Workshop 10:

Etimologia: entre a Filologia, a Linguística Histórica e a Lexicografia

Mário Eduardo Viaro (USP)

De todas as línguas românicas, a língua portuguesa é a que se encontra em
situação mais deficitária com relação às questões etimológicas. Isso fica patente em trabalhos de Linguística Românica, como o Dictionnaire Étymologique Roman, do ATILF, coordenado por Éva Buchi (Nancy) e Wolfgang Schweickardt (Saarbrücken), que buscam reconstruir o latim falado com base nos mais antigos testemunhos das línguas românicas. Também fica evidente no grau de incerteza do léxico anterior às inovações do Português Brasileiro. Em questões relativas a determinados períodos (séculos XVII, XVIII e sobretudo o recente século XX), é muito difícil determinar o que há de inovador no léxico, a despeito da existência de grande quantidade de informação disponível hoje na internet, como é a disponibilização de dicionários, como o de Raphael Bluteau (1712-1728). A falta de conhecimento dos elementos que caracterizam uma sincronia pretérita qualquer da língua portuguesa dá azo a hipóteses facilmente refutáveis pelos dados. Fruto desse desconhecimento é a situação paradoxal da história da língua portuguesa, que ainda continua pouco conhecida: se, por um lado, há alentados dicionários etimológicos da língua portuguesa, como é o caso das obras de Antônio Geraldo Cunha (1982, 1989, 2006) e de José Pedro Machado (1952-1977), ou mesmo dicionários que contemplem a etimologia como um dos principais elementos de seus verbetes, como o dicionário de Houaiss 7 Villar (2001), por outro, falta uma visão panorâmica dessa história, uma vez que não há suficiente integração entre o que se diz nos dicionários etimológicos ou nas gramáticas históricas e a informação lexicográfica de vocabulários feitos por filólogos ao fazerem suas edições diplomáticas e o cotejo da informação lexical nos aparatos de edições edições críticas. A definição rigorosa do terminus a quo de um vocábulo qualquer, ou seja, da primeira ocorrência abonada, muitas vezes se confunde com informações relativas à lematização de formas precariamente documentadas (uma vez que não se distingue forma lematizada de suas flexões) e com decisões filológicas múltiplas de fontes que ora provêm de edições diplomáticas, ora de edições críticas, ora de edições sem tratamento filológico. Anacronismos que conduzem a premissas falsas em diversas questões de extrema relevância são inevitáveis e, ao final, também se extraem conclusões paradoxais em pesquisas de linguística histórica. Aparentemente, uma linguística histórica da língua portuguesa se constituiu antes de descrições minuciosas de sincronias pretéritas, com base apenas em testemunhos e afirmações de autores clássicos da gramática histórica e de dicionários etimológicos de desigual qualidade informativa. Este workshop oferece uma oportunidade para que, tanto investigadores que trabalham com lexicografia de textos antigos, quanto filólogos que elaboram glossários de obras antigas, assim como etimólogos e linguistas históricos apresentem questões em que a Etimologia esteja no cerne de suas discussões e de suas decisões.

Serão acolhidas propostas de trabalho que tratem de:

  1. considerações sobre elementos pertencentes a glossários de obras
    filologicamente estabelecidas;
  2. Lexicografia do português antigo;
  3. Descrições sincrônicas de subsistemas da língua portuguesa em sincronias pretéritas;
  4. questões de Filologia Românica, com preferência à integração de idiomas da Península Ibérica, mediante empréstimo;
  5. questões teóricas relativas à Etimologia;
  6. outros temas considerados relevantes para o V Congresso Internacional de Linguística Histórica.

Workshop 11:

A onomástica e as contribuições para a linguística em perspectiva histórica

Juliana Soledade (UnB/UFBA)

Este workshop pretende abrir espaço para a discussão de como os estudos dos nomes próprios têm contribuído para o avanço do conhecimento acerca da história social das comunidades linguísticas, bem como para o conhecimento das línguas enquanto sistemas complexos. Entendemos que a onomástica merece deixar de ser o “primo pobre da linguística” (VAN LANGENDONK, 2007) e assumir seu protagonismo como uma área dos estudos linguísticos capaz de elucidar a relação das línguas com as comunidades em suas múltiplas ordens sociais. Os nomes próprios, como nos ensina Dick (1992, p. 112) acerca de topônimos e antropônimos, são “elementos conservadores do que se pode denominar de “memória” de um núcleo social” e, embora sejam elementos presentes em todas as culturas desde tempos imemoriais, ainda carecem de estudos científicos que deem conta de suas especificidades. Assim, no workshop, abrimos espaço para pesquisas e pesquisadores que desenvolvam abordagens sobre os nomes próprios em diferentes perspectivas, considerando, em especial, a sua historicidade. Serão acolhidas propostas de trabalho que tratem de nomes próprios de qualquer natureza (pessoas, lugares, instituições, produtos, marcas, personagens, astros etc.).

Destaca-se o interesse por estudos que tratem das relações entre:

  1. os nomes próprios e as suas implicações semânticas e cognitivas;
  2. os nomes próprios e a etimologia;
  3. os nomes próprios e a história social;
  4. os nomes próprios e a criatividade linguística;
  5. os nomes próprios e os processos morfológicos de formação;
  6. os nomes próprios e a lexicografia;
  7. os nomes próprios e a filologia e a paleografia;
  8. os nomes próprios e os aspectos gramaticais;
  9. os nomes próprios e a história em diferentes períodos (p. ex. antiga, medieval, colonial, contemporânea etc.);
  10. os nomes próprios e as motivações para sua atribuição.

Outros temas poderão ser considerados quando adequados aos propósitos do V Congresso Internacional de Linguística Histórica.

Workshop 12:

Sociolinguística e História Social das línguas

Dinah Callou (UFRJ)
Tânia Lobo (UFBA)

O objetivo geral do workshop é tecer considerações sobre a história sociolinguística do português no/do Brasil, com base na proposta de Mattos e Silva (1998) de observar, de início, duas vertentes de investigação: (i) uma referente à reconstrução da articulação entre fatos demográficos e fatos linguísticos; (ii) outra referente à reconstrução da história da escolarização no Brasil e em alguns pontos específicos do país, fundamental para compreender a polarização entre norma(s) vernácula(s) e norma(s) culta(s) do português brasileiro. A proposta é que seja discutida a evolução histórica de cidades, com vistas à interpretação do português brasileiro, heterogêneo, dentro do pressuposto de que o linguístico reflete o social, sem deixar de ter em mente as palavras de Lass (1997, p. 5): “As histórias da língua são como todas as histórias, mitos, pois não se pode saber o que realmente significam os documentos encontrados e registrados na história

Buscamos discutir (i) polarizações sociolinguísticas em realidades descompassadas e descontínuas, em relação ao contato entre sistemas linguísticos de monolíngues e bilíngues, bem como (ii) as proporções de letramento, além da (iii) questão das origens do português brasileiro e da simplificação exagerada do complexo sócio-histórico, tanto africano quanto ‘brasileiro’, no período que vai do século XVI ao século XIX, que “revelam
um parcimonioso conhecimento das línguas da África, e não raro comprometem as análises por seu próprio posicionamento ideológico” (MUSSA, 1991, p. 12).

Tentativa de partir da história social para chegar à história linguística, observando padrões de distribuição de fenômenos linguísticos – processos de mudança linguística – e sua relação com a sócio-história das comunidades.

As propostas de comunicação devem estar concentradas nos seguintes aspectos:

  1. A questão dos dados na sociolinguística histórica;
  2. Origens do português brasileiro;
  3. Mobilidade social e geográfica: a dinâmica dos contatos linguísticos no período colonial e/ou imperial;
  4. Configuração sociolinguística do Brasil Colonial e imperial;
  5. Processos históricos de letramento e escolarização;
  6. Processos de mudança linguística e a sócio-história da comunidade.

Workshop 13:

Desafios e reverberações dos estudos dialetológicos no Brasil no século XXI

Vanderci de Andrade Aguilera (UEL)
Jacyra Andrade Mota (UFBA)

A dialetologia no Brasil, desde a sua gênese até o final do século XX, ocupou um lugar periférico na atenção de pesquisadores que atuam na área da Linguística. O grande interesse despertado pela Sociolinguística, implantada como disciplina curricular no final da década de 1960, ganhou terreno nas principais universidades brasileiras onde vicejaram importantes estudos, envolvendo não só a descrição da língua portuguesa falada em nosso país, mas também a aplicação de seus princípios ao ensino e à aprendizagem. A partir daquele momento, a educação brasileira passou a considerar o ensino da variação linguística como fundamental nas escolas, bem como a reconhecer as diferentes normas de uso e a combater o preconceito linguístico e social. Por sua vez, nesse ínterim, embora com vasta publicação no exterior, a Dialetologia, em especial a Geolinguística, ocupava um discreto espaço em nosso meio acadêmico. Basta verificar que, desde o Atlas Prévio dos Falares Baianos (ROSSI, 1963) até o Atlas Linguístico do Paraná (AGUILERA, 1994), foram publicados apenas cinco atlas estaduais. No entanto, desde o advento do Projeto do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), no final de 1996, até a publicação dos dois primeiros volumes (CARDOSO et al., 2014), quase uma centena de atlas, abarcando dimensões geográficas variadas, passaram a interessar a academia sob a forma de monografias, dissertações e teses, em que se descreve a diversidade dos falares regionais; se demonstra a legitimidade de todos eles, se discute a divisão dialetal do Brasil e se apontam as formas de valorização e de desprestígio de cada qual. Cumpre observar que, pouco a pouco, aos estudos dialetológicos se somaram os princípios da Sociolinguística rumo a uma Dialetologia Pluridimensional e Contatual, isto é, focalizando a distribuição areal associada a múltiplos fatores externos.

Com a finalidade de documentar os avanços na área da Dialetologia, este workshop propõe atingir os seguintes objetivos:


(i) congregar pesquisadores que trabalham com as múltiplas manifestações da língua falada no país, nos mais diversos centros de estudos;
(ii) motivar a apresentação de pesquisas dialetológicas, em suas variadas
dimensões: diatópica, diastrática, diassexual, diageracional, diarreferencial, contatual, entre outras;
(iii) implementar a relação entre a Dialetologia e outras áreas, como a Etnografia, a Informática;
(iv) discutir a aplicação da metodologia que vem sendo utilizada para a elaboração de atlas de outras línguas ainda aqui faladas, como as línguas indígenas, as de imigrantes, entre outras;
(v) ressaltar a relação entre a Dialetologia no Brasil e o ensino da língua portuguesa. Para a consecução destes objetivos, são convidados os pesquisadores que exploram corpora nos mais diversos aspectos da linguagem como, por exemplo, o fonético-fonológico, o léxico-semântico, o morfossintático, o prosódico e o atitudinal.

Workshop 14:

Historiografias da mudança linguística no Brasil

Cristina Altman (USP)

Como geralmente proclamado pelos manuais de História da Linguística, a mudança linguística como objeto de reflexão e estudo foi particularmente intensa no século XIX alemão, momento, aliás, da sua institucionalização. Basta lembrar desde os estudos de Rasmus Rask (1787-1832) e Jacob Grimm (1785-1863) sobre as línguas germânicas; de Franz Bopp (1791-1867), sistematizador dos resultados das pesquisas desenvolvidas sob o modelo histórico-comparativo, até Hermann Paul (1846-1921), para quem, já ao final do século XIX, não existiria ciência da linguagem que não a histórica. A distinção entre uma ciência da linguagem e uma não ciência, entretanto, assumiria outros contornos na formulação de Ferdinand de Saussure (1857-1913) com a cisão, ao menos é assim que o século XX vai interpretá-la inicialmente, entre sincronia e diacronia. Com o entendimento, neste caso, da primazia dos fatos sincrônicos sobre os diacrônicos, já que apenas os primeiros constituiriam um sistema linguístico, este sim, o único objeto passível de estudo científico (cf. a autonomia da langue em relação à parole).

Dessa ótica, muito do esforço teórico pós-saussuriano, da parte daqueles interessados em investigar a mudança linguística, pode ser interpretado como uma busca de sistematicidade também nos processos diacrônicos. Assim, para além da herança histórico-comparativa, que continuou a produzir trabalhos em documentação e reconstrução, o século XX viu surgir um certo número de modelos explícitos sobre a mudança linguística em quadros de trabalho bastante diferentes entre si, como o funcionalismo estrutural, o gerativismo, a teoria da gramaticalização, e o variacionismo, para mencionar apenas os mais em evidência no terreno da disciplina Linguística.

Os percursos percorridos por estes modelos para o estabelecimento de um domínio científico – em matéria de conceptualização teórica; estabelecimento de uma terminologia consistente; métodos de análise, descrição, explicação e aplicações – variaram conforme os contextos de sua recepção, como seria de se esperar. A questão central que motiva a formação do presente workshop decorre exatamente dessa expectativa: que lugar a linguística histórica, lato sensu, teria ocupado/ ocupa/ poderia ocupar, na história desses circuitos de recepção? Dito de outra maneira, o workshop tem a intenção de discutir até que ponto o estudo histórico das línguas do Brasil/ no Brasil, pode ser inserido na historiografia da linguística histórica dos séculos XIX e XX.

Com este objetivo em mente, espera-se reunir trabalhos que discutam tanto os conceitos (e/ou terminologias, metodologias, níveis de análise e resultados) ‘imanentes’ das teorias sobre a mudança linguística nos seus contextos de origem, quanto no que diz respeito aos valores que esses mesmos conceitos (e/ou terminologias, metodologias, níveis de análise e resultados) assumiram nos seus contextos de recepção, notadamente, o Brasil. Seria igualmente desejável que os participantes situassem sua reflexão em um (ou mais de um) dos quadros de trabalho mencionados (históricoc-omparativo, funcionalista, formalista ou variacionista). Dessa maneira, abriríamos algumas possibilidades de comparação.

Como suportes possíveis de trabalho, pense-se, por exemplo, nas contribuições de Roman Jakobson (1896-1982) e Mattoso Câmara Jr. (1904 1970); nas de Silva Neto (1913-1960) e os romanistas europeus; nas oposições conceituais que se criaram entre a Filologia, a Dialetologia e a Linguística brasileiras; na vasta gramaticografia portuguesa e brasileira dos séculos XIX e XX e sua aplicação ao ensino; na gramaticografia colonial, indígena ou africana; na elaboração de dicionários etimológicos; na elaboração de ensaios, monografias e gramáticas a partir das respostas que os modelos contemporâneos deram à questão da mudança linguística. Os trabalhos podem ser direcionados tanto para o conteúdo proposto (teoria), quanto para o contexto de recepção (a história factual), ou ambos. Dada a eventual heterogeneidade dos corpora estudados, espera-se que os pesquisadores explicitem, nas suas propostas de participação, seus pressupostos teóricos, a metodologia de trabalho e as categorias da sua análise. Embora entenda-se aqui a Historiografia Linguística como uma reconstrução racional da arquitetura e do desenvolvimento do objeto estudado, tanto no seu contexto de produção quanto no de recepção, outras epistemologias serão mais que bem-vindas, desde que próximas às delimitações sugeridas.

Voltar ao Topo